FRANCISCO CHAVES
B l o g
Compilação de posts de facebook (PT)
Desde há muitos anos que faço posts no facebook. Aqui está uma compilação deles:
A evolução inevitável da dança para a música absoluta.
Vi um vídeo do famoso DJ "Questlove" que disse a seguinte frase: "Antigamente o DJ era um artista que passava música para as pessoas dançarem. O DJ estava como pano de fundo. O importante era a pista de dança. Hoje em dia as pessoas querem ver o DJ criar algo no momento. As pessoas querem ver o DJ realizar uma performance. Apreciar a arte e a música em vez de simplesmente dançarem."
Fiquei estupefacto com esta afirmação. Porque, sabem que em, TODOS OS GÉNEROS musicais, aconteceu exactamente essa tradição? Repito: Todos.
Na música clássica, dançavam-se "minuetos" nas cortes, mas os "minuetos" começam a ser introduzidos nas sinfonias clássicas (tipicamente, seria o 3º andamento de uma sinfonia), e, uma nota extremamente importante, esse minueto inserido no meio de uma sinfonia não é suposto ser "dançado". É suposto ser "apreciado musicalmente". Ou seja, o "minueto" é um modelo baseado numa dança que os compositores clássicos usam para depois fazerem música "que não é para dançar". E sim, isto inclui as famosas "suites de Bach" com "Allemandes" ,"Sarabandes" e "Bourées". Não são nem nunca foram para serem dançadas. O Bach simplesmente usa um modelo composicional para criar a sua obra artística.
E o Jazz? Igual. O jazz começa como música de bares e salões de dança. Mas à medida que o tempo avança, os músicos "expandem" a forma e quando chegamos a Coltrane e Miles Davis, o "swing" e o "bebop" já não se dança. As pessoas sentam-se em silêncio a apreciar. O swing está lá. Mas é difícil para um leigo dançar com um saxofone a metralhar semicolcheias a alta velocidade e com modulações e mudanças de tons inesperadas.
E o tango? Igual. Piazzolla pega no tango tradicional e faz música que é para ser apreciada e não dançada. Os amantes de tango sabem perfeitamente que a música de Piazzolla não é de todo fácil ou apropriada para dançar o tango, visto fugir tanto ao "padrão tradicional".
E o Fado? Embora o fado não seja uma dança, tem um padrão semelhante: Começamos com os fados corridos, de cáracter mais popular, tradicional, as pessoas batem palmas e "estão animadas" e as décadas passam e os fados começam a tornar-se mais lentos e mais "emocionalmente complexos".
Ou seja, praticamente em todos os estilos musicais, no seu primórdio, existe uma "função básica" (=dançar/festa) e o estilo de música inevitavelmente torna-se mais complexo, ao ponto que já deixa de ter a função de dançar, o que faz o público mudar até a sua forma de apreciar o género musical.
A pergunta que se segue: "Então as pessoas já não dançam?" Claro que dançam, mas como o estilo musical evoluiu tanto, OUTRO ESTILO musical tem que ser "inventado" para substituir o estilo musical que "sofreu a evolução estética". O jazz substitui a música clássica, a música electrónica substitui o jazz, a "kizomba" substitui a música electrónica e algo substituirá a "kizomba" quando esta se complexificar.
Cria-se a tendência cultural que as pessoas "dançam" o estilo musical "do momento" e "apreciam musicalmente" o estilo musical do passado. Ou seja, ainda se tocam e gravam minuetos de Mozart mas já não se dançam esses mesmos minuetos. No futuro imagino haverem concertos de Kizomba nas salas de concertos e as pistas de dança terão um género musical ainda não inventado. Será assim o futuro, muito provavelmente.
O problema actual da hiper-especialização e dos "falsos especialistas". (14.05.2026)
Quando era pequeno, lembro-me de ver algumas entrevistas ao maestro Vitorino de Almeida onde lhe perguntavam a sua opinião sobre a música do "Quim Barreiros" ou sobre os "Xutos e Pontapés", entre outros. A pergunta começava sempre com: "Sendo você um especialista em música... que acha de..." (e lá faziam a pergunta).
Seria como perguntar a um conceituado neurocirurgião, "Sendo você um excelente médico, que acha deste problema que tenho nos rins?".
O conceituado neurocirurgião diria: "Para problemas nos rins temos nefrologistas que estudam a fundo os rins."
Também não se pergunta à Telma Monteira, campeã do judo, o que "acha do novo campeão de Boxe". Sim, poderá ter a sua opinião como desportista, e poderá dar a sua opinião, mas obviamente que a pessoa está sempre "condicionada" a ver e a analisar as coisas de acordo com a sua especialidade.
Eu idolatrava os "génios" do renascimento, que percebiam de biologia, astronomia, matemática, pintura, escultura, enfim. Será que hoje somos mais burros? Eu sonhava também ser génio em tantos meios diferentes e perceber de tantas áreas diferentes!
O problema é que, como não existe o "génio da medicina" (pode ser um fantástico neurocirurgião e perceber zero de problemas renais!), também não existe o "génio da música" ou o "génio do desporto". O campeão da maratona perde nos 100m contra qualquer atleta de calibre médio.
A hiper-especialização não é um problema. O problema é que nós ainda continuamos a achar que "indíviduo X é um génio", logo o que "indíviduo X" diz é lei e é o supra-sumo das coisas. Este "travestismo de conhecimento" é abusado até nas biografias pelos ditos "historiadores".
"O Picasso comia ovos crus ao pequeno almoço e era um fantástico pintor e dizia que comer ovos crus era o segredo para a sua inovação."
Isto deixa nas pessoas uma mensagem subliminar: "Se Picasso comia ovos crus, então também vou comer ovos crus para me tornar um bom pintor."Talvez receber conselhos nutricionais do Picasso não seja a melhor opção de vida, ao contrário do que famosos historiadores possam afirmar.
(não sei ou não se ele comia ovos crus, é apenas um exemplo parvo).
Na escola onde trabalho, um dos trabalhos que faço é ser "band coach", montar uma banda com guitarras, teclados, bateria, baixo e guiá-los. Trabalhamos sem partituras e eu faço sempre o arranjo na hora para a banda, ditando e tocando todas as partes para os alunos visto que a maioria não sabe ler partituras.
Uma vez no ensaio ao tocar bateria para o aluno, passa o professor de bateria que me vê tocar: "Olha, estás fazendo isso mal, deixa-me dar uma dica." E lá me salvou a pele, pois eu lá iria "ensinar mal" o aluno de bateria. Agradeci-lhe muito. Falamos e de vez em quando faço-lhe perguntas. Como um neurocirurgião a pedir opinião ao colega dos rins. Visto que, como escrevi acima, "não existem génios suprassumos de nada" hoje em dia. Essa parceria é fantástica.
"A Amália cantava fado e não sabia ler partituras." Sim, é verdade, mas ALGUÉM tem que saber ler as partituras. Alguém tem que escrever os arranjos orquestrais e alguém tem que compôr a música. E alguém tem que saber comunicar isso aos músicos. Logo, levando a analogia ao cúmulo é: "O neurocirurgião é famoso e muito bem sucedido e não percebe nada de rins." Conclusão: "Não precisamos de nefrologistas." Errado. Precisamos dos nefrologistas. A questão é essa. Todos somos essenciais, cada um aplicando a sua "micro-especialização". Mas uns são elevados a "divindade" enquanto outros não.
Nós podemos ser geniais num aspecto e ser completamente ignorantes noutro. O que a nossa sociedade promove hoje é a "hiper-especialização" mas as pessoas continuam a acreditar nos génios do renascimento. E noto que as pessoas não entendem que ditos "especialistas" podem ser, na verdade, pessoas completamente ignorantes noutros meios. Se queres ser o mestre do "rock and roll", pedir opinião ao Vitorino de Almeida pouco te ajudará no teu percurso, mesmo sendo ele "um mestre da música".
A mim dá-me imenso prazer aprender tudo. Infelizmente, sem "hiper-especialização" nunca serás o melhor do mundo. Para seres o Cristiano Ronaldo da medicina renal, tens que te focar a 100% nos rins e ignorar o resto. Eu não consigo. Os que se focam serão bem sucedidos, isso é certo, e serão ignorantes noutras áreas. O que vou dizer parece uma ofensa mas é verdade: "Se o Cristiano Ronaldo tivesse passado mais tempo na escola a ler os Lusíadas, não teríamos o Cristiano Ronaldo." porque em vez de praticar futebol ou estar no ginásio, estaria a "desperdiçar" o seu tempo a ler os Lusíadas. Poderia ter sido melhor aluno na escola, mas teria dispersado a sua "atenção". Não teria tido o foco necessário no futebol para "ascender na carreira".
Ou seja, a Amália focando-se na arte de "cantar" em vez na arte de "escrever partituras", fez com que se tornasse uma verdadeira especialista do cante. Outros lá terão estudado a arte de "escrever partituras" e lá serão os mestres disso e lá ajudarão a Amália a comunicar com músicos de orquestra, por exemplo.
Isto é o dilema. O foco faz com que nos tornemos campeões, mas também nos faz ignorantes noutras áreas. Mas é o preço a pagar para ser um campeão. Eu não sou campeão de nada (ainda bem).
O que significa “passar o tempo a estudar música”? Uma comparação entre géneros musicais. (09.05.2026)
A vida de um futebolista e de um atleta olímpico de natação não podia ser mais diferente. Um passa o tempo a praticar com outras pessoas, a socializar, a desenvolver competências sociais. O outro passa o tempo sozinho a nadar. Ambos desportistas, mas vidas diferentes. Trabalham músculos diferentes e têm rotinas de treino diferentes. Na música é igual.
Durante muito tempo, para mim “estudar música” significava:
- Pegar na guitarra e numa partitura.
- Tocar o que a partitura diz.
- Fechar-me num quarto e isolar-me socialmente até conseguir tocar o que a partitura diz sem dificuldade. Trabalhar exaustivamente na MESMA partitura até tê-la memorizada.
Para mim, estudar significava “evitar pessoas”. Para um músico de orquestra que toca uma sinfonia nova todos os meses, memorizar e “trabalhar exaustivamente uma única partitura não é bem o “modus operandi”. Capacidade de leitura à primeira vista (tocar uma partitura sem treino prévio) torna-se a capacidade fundamental a ser trabalhada. O músico de orquestra também tem que aprender a socializar e trabalhar em conjunto com os colegas, ao contrário do pianista ou do guitarrista, desenvolvido um sentido diferente de “ritmo”. (Um tema fascinante que fica para outra altura)
Logo, como o futebolista e o nadador, são músculos diferentes que são trabalhados. E nos outros géneros musicais? Como é?
A piada típica é que o “músico jazz não lê partituras”. Mas é falso. Ele sabe ler a partitura. Não toca é necessariamente o que está lá escrito.
A partitura é um “ponto de partida”, o músico jazz “estuda” a forma de improvisar, estuda a estrutura da música, e o estudo “exaustivo” existe, mas é feito de outra forma. O músico jazz pode trabalhar e tentar tocar a mesma música de 5 formas diferentes. Não há uma “performance idealizada” como há na música clássica.
E como será o músico indie/folk/pop?
Partilho a minha experiência a trabalhar com alguém dessa área. Pequena história pessoal. Estou com essa pessoa e digo:
“Estou a ter dificuldades em tocar este acorde e a fazer esta mudança à velocidade necessária. Dá-me umas horas de estudo e já conseguirei tocar a passagem.”
Responde-me a pessoa: “Não! Horas de estudo? Mas para quê? Toca outro acorde que seja mais fácil!”
Repito: “Toca outro acorde que seja mais fácil.”
Fiquei em pânico. Silêncio.
Nunca tinha ouvido tal coisa na minha vida. Para mim “estudar umas horas” não constitui problema, mas no mundo pop, se algo é difícil, epa, muda-se para algo tecnicamente mais fácil que funcione. A música soa bem na mesma. Estudar horas para fazer “algo difícil” não é bem o objectivo do músico pop/folk. O objectivo é trabalhar na letra da canção, na estrutura ou até no sentimento a cantar/interpretar. Trabalho técnico exaustivo é algo “para os totós”.
E um produtor musical que faz “beats” para artistas de hip-pop? Para essa pessoa, trabalhar exaustivamente significa passar o dia em frente ao computador a inventar sons e descobrir novos sintetizadores e “plug-ins” (efeitos que alteram o som de algo). Também já tive essa fase, onde passava os dias em frente ao computador a tentar pôr efeitos electrónicos marados na voz e na guitarra.
Portanto, todos trabalhamos, mas o conceito de “trabalho” é muito diferente e a nossa rotina é muito diferente. Cada género musical representa em si um “modus operandi” com filosofias e valores escondidos que são “óbvios” para quem está dentro desse mundo, mas nada “óbvios” para quem está fora dele. (Para mim, músico clássico da altura, não era nada óbvio que eu podia simplesmente mudar a música “para um acorde mais fácil”.)
A minha rotina tem mudado muito. Mas mesmo muito. Já tendo passado por variadíssimos géneros musicais, cada vez tenho que re-inventar um bocado a minha personalidade e o meu “modus operandi”.. Continuo activo e a estudar, (sempre) mas o que tem mudado é o meu conceito do significado da palavra “estudar”. Estudar já não significa “pegar numa guitarra e ler uma partitura”.
Isto é a minha forma super longa de dizer que não tenho praticado guitarra clássica nos últimos tempos. No outro dia uma corda da guitarra rebentou e acho que é ela que sente a minha falta e queria dar-me um aviso. Pronto, é isto.
Para que serve a música? O paradoxo dos arquétipos e da utilização real. (02.05.2026)
Há muitos anos atrás li um livro do musicólogo Daniel Levitin a falar sobre origens da música e o que a neurociência tem a dizer sobre assunto. Interessante mas incompleto, fica muita pergunta por responder.
Vamos a um caso concreto: A canção de embalar.
O bebé chora, a mãe canta uma canção de embalar para embalar e adormecer o bebé. O bebé adormece. Sucesso. Boa canção de embalar e boa performance.
O pianista num recital de música clássica toca uma canção de embalar no piano. O público adormece a meio. Terá sido a performance um sucesso? Ou seja, não é suposto o público adormecer durante canção de embalar? Na nossa sociedade, não. É suposto o público “ouvir e apreciar a música”. Não é suposto adormecerem. Mas o compositor decidiu “compor uma canção de embalar”.
Isto aplica-se a outros arquétipos (modelos). Mais um exemplo: A marcha. Objectivo: sincronizar os soldados. Mas se uma orquestra sinfónica tocar uma marcha, o objectivo não é o público levantar-se e começar a marchar. Há até compositores que “deturpam” o ritmo da marcha para fazer algo “moderno”, que “evoque” a marcha, mas nem sequer é em ritmo de marcha.
Outro arquétipo, bastante pessoal neste caso, a canção de camponeses. Uma canção de camponeses que se transforma em “Cante alentejano” e vai ser apreciada “numa sala de concerto”. Cante sem sem searas de trigo ao pé. Para quê cantar?
Portanto, existe uma “música primitiva original” com um objectivo concreto (ex: adormecer o bebé) mas depois pega-se nesse modelo e usamos o mesmo conceito com outro objectivo mais… “artístico” ou “abstracto”.
Qual o objectivo da canção de embalar num concerto? Acho que não será adormecer o público, mas talvez evocar o sentimento de ser embalado em bebé. E evocar esse sentimento traz uma nostalgia e uma emoção. Ou seja, é a evocação de uma memória passada ou a evocação de um conceito.
Com a marcha, pode ser a evocação de um tempo dramático, a guerra, com a canção de camponeses (cante alentejo um exemplo disso), pode ser a evocação de um tempo passado e de uma outra realidade que já não existe: o trabalhar no campo, a vida campestre. Talvez seja essa a “função” da música… E como evocar a memória de alguém que nunca trabalhou no campo? Ou seja, é uma memória que não existe, mas de algum modo evocamos esse modo de vida, mesmo que a pessoa nunca tenha trabalhado no campo (ex: Cante) ou estado na guerra (ex: Marcha). O que é um paradoxo interessante acho, a música cria a memória se algo que nunca aconteceu.
A intenção escondida. A Linguagem neutra. (25.04.2026)
Existe uma fantasia na mente de todos nós, que é: “É possível ser neutro.” Eu falo disto contra mim que sou mega de fã de neutralidade. Os países neutros (Suíça, Luxemburgo, Singapura, Qatar) são os mais ricos, mais prósperos, ficam no seu buraquinho enquanto os países à volta lutam e disputam território.
Mas até a falar de coisas banais como jardinagem, é impossível falar de forma neutral. Por exemplo:
“A Maria usa o seu tempo livre para cuidar do seu jardim.”
Eu poderia dizer isto de muitas outras formas.
“A Maria investe no seu jardim.”
“A Maria dedica-se ao seu jardim.”
“A Maria gasta o seu tempo livre trabalhando no seu jardim.”
A ação é sempre mesma, mas cada frase tem uma “mensagem escondida.” Se eu digo que ela “gasta o seu tempo”, dá a entender que “poderia fazer outras coisas mais úteis.” O jardim é algo de luxo e de supérfluo e de baixa importância. Se eu disser “investe no seu jardim”, dá uma visão mais capitalista, mais “utilitária” da coisa. Pensamos na valorização do imóvel, no retorno financeiro. Se eu disser que ela se “dedica ao seu jardim” então pensamos que ela tem uma paixão e faz as coisas com amor e cuidado, sem olhar para qualquer motivação financeira.
O verbo dita a mensagem “escondida”. Dizer a frase de forma “neutral” é impossível. Tudo transmite uma mensagem.
Se eu disser a um aluno: “Vamos tocar rápido.”, o aluno sente-se inseguro. “Tocar rápido!? Eu não sou assim tão bom, acho que não consigo.”
Se disser: “Vamos tocar em modo TURBO!” Então o aluno já se sente motivado. Tocar rápido é difícil, requer treino. Mas tocar em “modo TURBO” é divertido. A mesma ação e a mesma ordem origina duas reações diferentes. Turbo está associado a “diversão”. Rápido está associado a “stress”.
“Música lenta”. Esta frase usa uma linguagem que é “banida” das minhas aulas.
A palavra “lento” automaticamente conecta-se com “chato”. Por isso é uma palavra a evitar. Mas música “calma, tranquila” tem uma conotação positiva de bem estar. Mas é a mesma coisa. Matematicamente é igual. Mas se eu disser “Esta música é lenta” o público entende a mensagem escondida “a música é chata.” Se eu disser “Esta música é tranquila” o público vê o lado mais positivo da coisa. Palavras que achamos serem neutrais não são nada neutrais.
“Um membro das forças armadas neutralizou três alvos.”
“Um soldado matou três pessoas.”
A mesma frase descreve a mesma ação mas a primeira soa “menos agressiva” que a segunda. A primeira soa “legítima”. A segunda soa “imoral”. Isto é fundamental entender , especialmente quando lemos notícias sobre guerras em curso.
Tentem pensar sobre o vosso dia-a-dia. Coisas que são “más” como “matar uma pessoa” podem ser sempre “re-interpretadas” para uma forma mais “aceitável”. Porque existem uma linguagem escondida, mas poucos têm noção disso.
“A inteligência na música: Será mesmo necessária? Ou será que os burros também podem ser fazer música?” (18.04.2026)
(O título é provocativo de propósito, não fiquem ofendidos, é só um clickbait para lerem o texto. Boa leitura)
Frequentemente me deparo com alunos extraordinariamente inteligentes, mas que são preguiçosos. Isto na verdade é um padrão muito comum nas escolas de música. Acontece normalmente o seguinte:
- A criança é inteligente e tira boas notas na escola “sem estudar”.
- Depois vai para a escola de música, nas primeiras aulinhas lá faz umas musiquinhas simples com sucesso “também sem grande estudo”.
- Depois recebe elogios. Interiormente assimila que: “Sou bom e não preciso de estudar.” E a partir daí o progresso estanca. Estes alunos sabem ler bem as notas, fazem quase tudo “prima-vista” (ler directamente a partitura sem estudo prévio) mas chega a um ponto que “não dá mais”. O limite é atingido.
Comparo a uma pessoa alta que joga basquetebol. Ser alto ajuda muito no basqueteball. Sem treinar, o jogador alto tem melhor performance que o baixo. Mas se o baixinho começar a praticar todos os dias os dribbles e os cestos de 3 pontos, rapidamente se torna melhor jogador de basquetebol do que o alto.
Portanto o que acontece é que alunos menos inteligentes mas que estudam e trabalham todos os dias religiosamente acabam por se tornar melhores que os “supostos” alunos inteligentes.
Mas atenção, um nível “mínimo” de inteligência ainda é necessária. Esta ideia do “nível mínimo de inteligência” é tirada do livro “Outliers” de Malcom Gladwell que recentemente li. A tese é a seguinte:
Foi feito um estudo científico medindo o QI de várias pessoas.
Um QI de 100 é considerado “normal”. Se compararmos uma pessoa com QI de 80 com QI de 120, esses 40 pontos são fulcrais. A pessoa com QI de 120 tem mais sucesso, melhores perspectivas de vida, etc. Isto foi cientificamente medido.
Depois comparou-se a pessoa de QI 120 (acima da média) com uma pessoa de QI 160 (nível génio, muito acima da média). Resultado: pessoas com QI de 160 não têm necessariamente mais sucesso do que uma pessoa de QI 120. Muito estranho! Mais inteligência não se traduziu em mais sucesso. Porquê?
Porque existe o conceito de “inteligência mínima necessária”. Adoro este conceito. Por exemplo: Para ler notas é necessário um “mínimo de inteligência necessária”. O aluno tem que ter “um mínimo” para conseguir realizar a tarefa. Mas ter “mais inteligência do que a necessária” não ajuda realmente mais, porque o resto é questão de prática e automatização. Podes ter QI de 160 e perceber o sistema pianístico a fundo mas sem prática diária nunca vais conseguir “tocar escalas rápidas no piano”. Porque “tocar escalas rápidas no piano” requer “um bocadinho de inteligência (digitação)” mas não requer “super inteligência de nível génio”.
Ou seja, para tocar “escalas no piano”, o aluno tem que ser no mínimo inteligente suficiente para usar os dedos correctos e uma posição de mão correcta, em vez de tentar fazer tudo com um só dedo. Usando apenas um dedo, em vez de 10 dedos, e com uma posição de mão errada, por muito que pratique, não sai da cepa torta, mas se tiver o nível mínimo de inteligência desbloqueado, então a partir daí é só questão de prática.
Portanto: Os burros podem fazer música? Sim, mas para certas coisas um “nível mínimo” é necessário. E o “nível mínimo” pode ser ajustado. Por exemplo “tocar escalas devagar no piano” é algo que não requer estudo diário, nem requer uma digitação correcta, nem requer atenção à digitação, requer apenas “tocar na tecla correcta”, um nível mínimo de inteligência muito mais fácil de atingir. Se tocarmos música com “ritmo livre improvisado” então ainda melhor, baixa-se ainda mais o “nível mínimo” de forma a que todos possam realizar música. Isto acaba por ser necessário em crianças muito novas e bebés ou em pessoas com necessidades especiais.
Medicina, superstição, homeopatia e cristais enérgicos - Um choque cultural (15.04.2026)
Enquanto português, uma das coisas que me "chocou" depois de viver algum tempo na Holanda/Alemanha é a "fascinação" das pessoas por "medicina alternativa" nestes países, dito, supostamente """desenvolvidos""" (entre muitas aspas!)
Os médicos receitam cházinhos, uma amiga usa cristais enérgicos e velas com incenso para curar a mal-disposição são vendidas em lojinhas.. Tudo isto pareceu-me "bizarro", sendo tão habituado à medicina "convencional" em Portugal. Durante anos não consegui entender o porquê. Acho que hoje já entendo. E vou então explicar a minha tese.
Uma distinção importante: Doença ligeira vs doença grave.
Todos nós ficamos doentes. Uma constipaçãozinha aqui, uma virose acolá. Uma dor de costas hoje, uma alergiazinha amanhã. Incomoda. Mas não nos mata. Estas doenças "ligeiras" na Alemanha e na Holanda "não são tratadas". É verdade. É chocante. Mas é assim. As lojinhas vendem os cristais "com poderes curativos" e os médicos receitam um cházinho para acalmar.
Se resultar: Tudo bem. Problema resolvido. Se não resultar: Aí sim, entra a medicina dita "convencional". Raio X, ultrasom, análises, e o método científico começa a trabalhar a toda a força. Os alemães não são burros. Se a dor não passa e é forte, eles depressa abandonam os "cházinhos" e começa-se efectivamente a "tratar o problema".
Ou seja, são "crentes" até certo ponto. A "crença" é um muito acto relativo. Porque quando a dor é ligeira, o "crente" acredita no cristal milagroso. Mas quando a dor é grave, aí o "crente" já quer um raio X.
Existe de facto uma minoria da população, talvez 0,01% que, mesmo estando à beira da morte, continua a acreditar nos "cristais energéticos" e recusa-se a fazer um raio X, mas considero isso de facto uma minoria sem relevância. Os alemães e holandeses não são assim.
As crenças e as superstições são "flexíveis". Isto é muito importante de se entender. E há motivos para que seja assim. Lêmos o horóscopo quando estamos saudáveis e acreditamos nos signos, mas se tivermos um cancro, não vamos ao horóscopo procurar a solução do cancro. A nossa "crença" muda em função da situação. Isto é um ponto talvez dos mais importantes que é pouco falado na nossa sociedade. Por isso, repito: As crenças são "flexíveis". Não são fixas.
Isto traz vantagens e desvantagens para a sociedade.
A vantagem é: Os hospitais estão muito menos sobrecarregados do que em Portugal. Porque as pessoas não se deslocam lá para "doença ligeira". Apenas para "doença grave". Cá vai um paradoxo: Para um médico adepto do método científico, a medicina alternativa pode "filtrar" os doentes que não têm problemas "realmente graves". Porque se o cházinho curou o problema, então pronto, também não era necessário ir ao hospital e consumir os recursos do estado.
Logo, a medicina convencional "usa-se" da medicina alternativa para "filtrar" os doentes. Para evitar que tanta gente vá ao hospital. É mais eficiente, poupa-se dinheiro. Obviamente que traz desvantagens. E a grande desvantagem é que os problemas são muito mais tarde detectados.
Cá vai uma estatística para vos fazer pensar.
País - Esperança média de vida - PIB per capita.
Portugal - 81.8 anos. - 27.000€
Alemanha - 80.7 anos - 51.000€
Holanda - 81.7 anos - 63.000€
Temos o dobro do riqueza na Alemanha e Holanda mas as pessoas não vivem mais anos. Na Alemanha até vivem 1 ano menos que em Portugal (!). Os problemas graves são detectados mais tarde porque menos pessoas usam a medicina convencional para os problemas de "doença ligeira". E nunca se sabe se a "doença ligeira" evoluirá (ou não) para doença grave. Mas é um compromisso.
Na Alemanha e Holanda arrisca-se mais, a doença ligeira é "ignorada" e isso faz os hospitais ficarem menos sobrelotados. Em Portugal vai-se mais ao médico, sobrecarrega-se mais o sistema.
Fica aqui o texto de hoje, espero que tenham gostado. Acho que este tema é muito pouco falado, mas é interessante.
Eleições na Dinamarca: Um pequeno dilema matemático. Mentir ou não mentir em campanha eleitoral. (25.03.2026)
Os dinamarqueses votaram. E algo muito engraçado aconteceu: Um dilema matemático impossível de resolver. Um sudoku sem solução. E como sempre fui um fã de matemática na escola, cá vai o problema típico das Olimpíadas da matemática.
A Dinamarca tem... (pausa dramática)... 12 partidos... Puff... (!) Todos eles com percentagens relativamente baixas e distribuídas igualmente entre si. Nenhum tem maioria. Mas existem basicamente 3 ideologias: esquerda, centro e direita. A esquerda só coliga com esquerda ou centro. A direita só coliga com direita ou centro e o centro só coliga usando uma combinação de esquerda e direita. Foram estas as promessas que cada um dos lados fez durante a campanha eleitoral. Como resolver este dilema? Vamos aos números
Esquerda: 84 deputados
Centro: 14 deputados
Direita: 77 deputados.
90 são necessários para uma maioria.
Ou seja, a esquerda sozinha não ganha. A direita sozinha não ganha. E os moderados não querem um governo "só esquerda" ou "só direita". E sem o apoio dos moderados, ninguém tem maioria.
Um governo tem que ser formado... eventualmente.
Logo, matematicamente, alguém tem que ceder. Alguém tem que votar atrás na palavra. Os moderados têm que aceitar um governo "menos moderado" ou um partido de esquerda têm que ser "viracasacas" e aceitar coligar-se com a direita, ou vice-versa o que irritará o seu eleitorado respectivo. Só há más decisões e nenhum político pode cumprir com a sua palavra. Tem que haver um "viracasacas" para quebrar o impasse.
A Holanda tem mais ou menos o mesmo problema (17 partidos!!). Muitos partidos, muita pluralidade. Significa que nem a esquerda nem a direita nem o centro têm o poder. As pessoas têm que... aprender a engolir sapos e trabalhar com o partido com ideias opostas. Quando há muita democracia, todos ficam descontentes. Os "virascasacas" são a chave que desbloqueia um sistema que tem tendência a ficar bloqueado.
Ou seja, matematicamente falando, o partido que governará será o partido que irá "desiludir" o seu eleitorado. O partido que mente. Os "viracasacas" Mas que paradoxo fascinante! Para satisfazer o eleitorado e governar, o partido tem que desiludir o próprio eleitorado, trabalhando com partidos do lado oposto. O partido democraticamente eleito será o partido que mentiu na sua campanha eleitoral. Porque se cumprir com o prometido (não coligar com o lado oposto), então nunca governará. Mind-blown.
Espero que gostem do texto de hoje. Uma homenagem aos partidos "viracasacas" na Holanda e Dinamarca que permitem que se formem governos. Um bem haja.
Vou partilhar convosco um segredo hoje:
Um método de aprendizagem SUPER EFICAZ E SIMPLES que TODA A GENTE odeia. (23.03.2026)
Este método uso muito esporadicamente com os meus alunos. Como já disse, tem uma grande vantagem: Resulta. 100% eficaz. Problema: Ninguém gosta deste método.
Foi com este método que aprendi a nadar com 2 ou 3 anos de idade. E o método foi: O meu tio atirava-me para a piscina e eu tentava não me afogar. É isso. Atirar o aluno para a situação. Não explicar como se faz, não entrar em teorias pedagógicas. É pegar na criança, montá-la na bicicleta e vê-la cair. Cada vez que cai, inconscientemente aprende a andar de bicicleta.
Que tem isso a ver com aulas de música?
Muito simples, em vários grupos de crianças (às vezes até adultos, mas raro! Porque adultos detestam isto!) é colocar o instrumento na mão e dizer “Toca, vamos fazer um duo. Praticas agora 2 minutos, tocas estas duas notas o mais depressa que conseguires e daqui a 5 minutos fazemos concerto para os pais.” Coloco um “beat” de fundo e eles “”tentam”” tocar sincronizados com o “beat”. Não explico nada. A posição é errada, a teoria é inexistente e eles ficam “perdidos” como eu andava perdido na piscina com 3 anos a tentar não me afogar. Mas, passado as semanas disto, consigo ter alunos super “musicais” e os pais surpreendidos que “o meu filho tem talento para música”. Têm o mesmo talento para música como o meu talento para nadar aos 3 anos.
Esta abordagem usei também para aprender holandês. O meu nível de holandês era super básico (A2). E o nível seguinte seria o “B1”, ou seja uma progressão gradual. Como o curso B1 custava umas quantas centenas de euros e eu era um estudante sem rendimentos na holanda pensei: “Vou-me inscrever directamente para B2 sem fazer o B1”. A aula B2 era inteiramente em holandês. A professora só falava holandês na aula. Entrava em pânicos constantes na aula porque não entendia 80% do que a professora dizia. Mas as semanas lá passaram, e , quase por magia, na aula número 7 ou 8 lá comecei a entender mais. Usava o tradutor na aula enquanto a professora falava para não me ir perdendo. Ao fim de poucos meses tinha o Holandês B2. Foi uma experiência agradável? Não. Recomendo? Sim.
Por vezes o método mais eficaz é o mais desagradável. Tento não o usar muito, mas sei que em caso de necessidade, “atiro o bebé para a piscina” e ele eventualmente vai aprender. É infalível. Por este motivo alguns pais não gostam de mim quando uso este método na escola. Alguns depois de verem o resultado vêm-me dar razão meses depois, como aconteceu já várias vezes.
Post de hoje: A lei transgénero em Portugal e a polémica associada. O verdadeiro motivo pelo qual se fala disto nos media. A perspectiva de um ex-pseudo-Holandês. (20.03.2026)
O que pretende o PSD (centro-direita) ao alterar a lei relativamente aos indíviduos transgénero. O que motiva esta decisão?
Tendo vivido na Holanda durante 2 anos, um país bem conhecido por ser “mais à frente” nessas questões, sinto que há uma ideia errada na população portuguesa. A ideia de que os holandeses são “liberais, progressistas”. Sim… e não. É um tema mais delicado do que isso.
A verdade vai chocar-vos. Mas a verdade é esta: Os holandeses não querem saber. Os Holandeses são individualistas e estão-se a borrifar para a “esfera privada” dos outros. Os holandeses são pragmáticos. E pragmáticos significa investir tempo e dinheiro e recursos em temas que “”realmente interessam””. Ou seja, economia do país, planeamento urbano, etc. Se alguém é transgénero ou não, se quer mudar de sexo ou se quer manter o sexo, é indiferente. O indíviduo tem que trabalhar, pagar impostos, descontar para a segurança social e a lei é feita para dar ao indíviduo liberdade de ser ou fazer aquilo que quiser. E se a operação para mudar de sexo gerar receita adicional ao estado através de IVA e outros impostos associados, então tanto melhor. O dinheiro circula, os indivíduos vivem em liberdade e todos ganham. Questões de moralidade ou imoralidade são deixadas para segundo plano.
Investir muitos recursos do estado em projectos-lei, em discussões parlamentares para um assunto que de facto só afecta 0,01% da população é, na prática, um “desperdício de tempo e de recursos”.
O PSD tem que “mostrar trabalho” ao seu eleitorado. Mesmo que esse trabalho seja inútil, mesmo que esse trabalho não contribua para o bem-estar do país, para a melhoria da economia, qualidade de vida, etc. Fazer algo, fingir que se trabalha acaba por ser a mentalidade vigente. Para o eleitorado: “Fizemos Xyz. Trabalhámos.” Na verdade, o país pouco mudou, o impacto das medidas é mínimo. Mas gerou-se muita conversa acerca do tema (incluindo este post).
A verdade é: Se o vosso vizinho do terceiro esquerdo muda de sexo, a vossa vida não melhora nem piora por ele/ela mudar de sexo. É indiferente. E o governo holandês sabe disso. Por isso é que até governos de direita (sim, de direita!) na Holanda passam leis mais “progressistas” porque eles sabem que limitar a liberdade dos indíviduos não contribui para o bem-estar ou desenvolvimento da sociedade. Pragmatismo leva a uma política mais progressista. Mesmo em governos de direita (!)
No entanto, a macro-estratégia do PSD é: “O CHEGA tem muitos votos e temos que lhes roubar uns quantos votos. Logo temos que ser um bocadinho homofóbicos e racistas de vez em quando para conseguir esses votos e convencer esse eleitorado. Os nossos votantes de centro-direita continuarão a votar em nós porque somos o único partido de direita moderada e com estas medidas vamos tentar roubar alguns votos ao CHEGA.”
Por isso o PSD tem que investir algum tempo a fazer medidas “retrógadas”, que não beneficiam o país em nada, para eventualmente, nas próximas eleições, roubar uns votos ao CHEGA e conseguir uma maioria mais confortável no parlamento. Isto é o objectivo do PSD e o seu plano a longo prazo.
O CHEGA mesmo não estando no poder, porque tem tantos votos acaba por influenciar os restantes partidos, empurrando-os mais para a direita. Chama-se a isto “desvio do padrão normal”. O que a sociedade considera “normal” é lentamente desviado mais para a direita ou para a esquerda em função dos partidos “mais extremos”. Os partidos extremos normalmente não têm votos suficientes para ganhar eleições mas afectam os outros, da mesma forma que numa maratona um corredor lento afecta a velocidade do pelotão. O pelotão vai mais lento porque alguém vai psicologicamente “arrastando” o pelotão para trás. Com os partidos políticos funciona da mesma forma.
Tabus na música. (15.03.2026)
Música é liberdade, expressão, criatividade. Não há regras. Certo? Errado. No texto de hoje vamos abordar as regras “implícitas” em cada género musical. Os tabus da música que ninguém fala. Vamos a isso.
Música clássica: Digamos que um cantor ou cantora vai cantar uma certa ópera e a sua voz é demasiado grave ou aguda, então transpõe-se a canção para um tom mais confortável. Certo? Errado. Na música clássica se o cantor/a não consegue atingir certas notas, então simplesmente não canta essas peças e canta outras. No jazz a transposição é prática comum mas será o jazz assim tão “livre de regras” como os “jazzistas” dizem?
Jazz: Imaginemos que quero tocar uma música de um certo músico jazz, por exemplo, Chick Corea, eu posso tocar a música dele e o tema (melodia principal) dele, mas não posso “copiar” o solo dele. Isto como músico clássico sempre me fascinou. É um grande tabu e caso alguém faça isso será rapidamente ostracizado. Na música clássica seria tipo: “Tocas o tema do Mozart, mas as variações do tema improvisas tu!” Acho que qualquer pianista clássico iria entrar em pânico com essa prática. E a malta do hip pop? Terão eles liberdade absoluta?
Hip-pop: Facto fascinante: O hip-pop é um género que não admite covers ou “re-interpretações”. Ou seja, eu não posso subir a um palco e recitar as rimas do Eminem. Eu tenho que inventar as minhas próprias rimas e contar a minha própria história. Seria como um actor ser obrigado a escrever o próprio texto. Estranho, certo? Mas no hip-pop soaria “inautêntico” eu contar a história do Eminem usando as rimas dele. Como não cresci num bairro social e não posso fazer covers, não terei um futuro muito promissor na carreira do hip-pop. Logo, o hip-pop também tem os seus tabus. E a música pop? Terá ela um tabu?
Pop: O pop é difícil de catalogar porque o pop é literalmente o “génerico” mas para mim o “tabu” e a regra implícita do pop é: Proibição da música puramente instrumental. Além disso, seções instrumentais têm que ser de curta duração. Não existe música pop sem um cantor ou cantora ou um texto. Tem que haver vozes, texto, mensagem. Música instrumental “pop” é algo que… acho não existir. Obviamente que o pop tem solos instrumentais mas tendem a ser curtos e se forem muito longos já deixa de ser pop e passa a ser “jazz”. Interessante, não? Conhecem alguma banda pop famosa que passe na rádio que não tenha cantores e/ou texto?
E as ditas “músicas do mundo”(música folk): Muito simples, para ser música folk, o músico se for homem tem que vestir uma camisa simples de flanela com tons de beige e verde escuro. O cabelo do homem tem que estar ligeiramente despenteado. Se for uma mulher, essa mulher terá que ter o cabelo curto com um pequeno piercing orelha esquerda. Opcionalmente, como extra, também usar um colar com uma pequena pedra feita de cristais com poderes curativos. Se não estiverem presentes esses elementos, não é música folk.
Espero que tenham gostado do texto de hoje
O paradoxo da guerra. Países fortes perderem guerras. (05.03.2026)
Aula de hoje: Porque é que países fortes e maiores perdem guerras contra países pequenos e mais pobres? Exemplos históricos: Sparta contra Atenas. Atenas era mais rica e tinha mais população que Esparta e os gregos perdem a guerra contra os Espartanos. Portugal contra espanha, numerosas batalhas, Espanha sendo maior e mais rico que Portugal, sempre perdeu as guerras onde tentou conquistar Portugal. Estados Unidos contra Vietname, Estados Unidos perdem tendo mais tropas e mais armas contra um vietname de fraca indústria e fraco poder de compra.
Como se explica isto? Exemplo atrás de exemplo onde aparentemente os mais fortes perdem. Desde quando os mais fortes perdem? Como sabem adoro paradoxos. Vamos a isso.
Imaginem que vocês nasceram nos estados unidos e vão para a guerra no Irão. Se perderem a guerra, pronto, paciência, vão para casa e a vida continua. recebes um bom salário, tens acesso e tecnologia e preparação técnica, tens treino… mas não tens grande vontade nem grande INCENTIVO para ganhar, porque se perderes, vais para casa e pronto.
Mas se vocês são iranianos, então estás a lutar pela tua casa, pelo teu país. Se a tua casa é bombardeada e perdes a guerra, não tens sítio para onde ir. O teu chefe até pode ser um ditador mas não tens intenção de aprender inglês e ser um “escravo” de uma outra nação. Logo, podes ter menos tecnologia, menos recursos, mas o incentivo para lutar é grande.
Logo, exemplo, Portugal contra Espanha, se os espanhóis perdem, continuam a ter uma “casa” , um “território” (porque Portugal invadir Espanha é uma impossibilidade sendo um país mais pequeno e pobre…) mas se os Portugueses perdem, então aí a nação deixa de existir. Logo, resumo: o país “fraco”, “pequeno” ou “menos influente” tem muito mais determinação, muito mais garra e muito mais resilência que o país forte.
O que vai acontecer (passo a passo):
1) Estados unidos destruirá a economia do Irão, talvez aguentar uns aninhos com tropas no terreno como fez no Afeganistão e Iraque. O país não irá desenvolver.
2) Islamistas extremistas e movimentos radicais vão crescer devido à economia e infrastutura destruída.
3) População terá que ir para algum lado - Aumento do número de refugiados nos países vizinhos e europa.
4) Chegam os refugiados, a extrema direita aumenta o número de votantes na Europa. Possível eleição de um governo extrema direita na Europa.
5) Depois de X biliões de euros gastos, os exércitos ocidentais saem do país.
6) radicais tomam conta do país (por ex: Taliban no Afeganistão) usando as armas que os próprios americanos lhes deram.
Isto é o que já aconteceu. É só ler um livro de história, por isso nós já passámos por isto. É só a repetição de mais um ciclo na história da humanidade.
“Tirei 80% num teste. Como me sinto?” (21.02.2026)
História de hoje. Uma aluna do 3o ano chega ao pé de mim:
“Olá senhor Chaves. Hoje recebemos as nossas notas! Tive 80%!”
“E como te sentes?” Respondi eu.
“Feliz!” disse ela.
“Boa!” Disse eu. “E os teus pais? Também estão contentes?”
“Sim, também estão contentes.” disse ela.
“Então boa.” concluí.
Fiquei parado a pensar… para mim 80% nunca me deixou satisfeito. Nem aos meus pais. Nunca fiquei feliz de ter tido 80% num teste. Não é nenhum falhanço, mas também não é algo que me deixe super feliz. Fosse a que disciplina fosse. Pensei: “Se calhar para certas famílias 80% é de facto considerado muito bom. Para outras 80% é pouco. A criança devia ter estudado mais e dedicado-se mais. Com 80% não se pode entrar em qualquer curso no final de contas.”
A bitola varia muito. Deixo a pergunta: “Como se sentem ou sentiam com 80% de sucesso escolar?” Ficavam tristes? Contentes?
Eu tendo a pensar nas coisas em extremos. Penso no médico que cura 80% dos doentes e mata 20%. No engenheiro onde 20% das pontes caem e no piloto de fórmula 1 que em 20% das corridas despista o carro e sai da pista. Pensemos no guarda redes que em 20% dos remates à baliza faz um erro e a equipa sofre um golo.
Sim. Um exagero, eu também devo falhar em 20% das aulas que dou. Devo se calhar desapontar ou desmotivar 20% dos alunos. E motivar 80% deles. Serei um bom professor ou mau professor com 80% de sucesso? O que acham?
É a reflexão de hoje. Bom fim de semana.
Análise matemática das eleições: Teoria de jogo. (vindo de um criador de jogos). (09.02.2026)
O que é teoria de jogo?
Muitos de vocês já conhecem a teoria do "voto útil". Ou seja, votar num candidato que não gostamos porque é uma estratégia para evitar outro candidato de ganhar. Isso é um exemplo de "teoria de jogo", mas esse campo vai muito mais além disso. Cá vai análise matemática das eleições. Ponto por ponto.
1) A abstenção foi +/- semelhante na 1ª e na 2ª volta. Por isso não vamos considerar esse factor.
2) Na 1ª volta, André Ventura recebe 23% dos votos e na 2ª volta recebe 33%.
Podemos concluir o seguinte: 23% dos votos foram apoiantes do CHEGA (resultados da 1ª volta) e os 10% restantes foram PSD + Iniciativa Liberal.
3) Tendo Cotrim Figueiredo + Marques Mendes (os candidatos de direita) um total de 27% combinados, desses, cerca de um terço desses votantes (mais votantes) deles "transferiu" o seu voto para Ventura.
4) Conclusão matemática: 2 em cada 3 pessoas de direita não Chega prefere o Seguro ao Ventura.
5) Hipoteticamente, caso TODOS os votantes do PSD (sem excepção) votassem Chega, então a combinação da 1ª volta: Ventura+CotrimF.+Marques Mendes iria dar 51% dos votos. Uma vitória para a direita.
6) Conclusão final: Quem decide quem ganha o jogo são os votantes do PSD. A esquerda ""teoricamente"", de acordo com as regras do jogo, nunca vai votar no Chega, logo o Chega depende 100% dos militantes PSD. Eles é que decidem e eles é que determinam quem vence as eleições.
7) Segue logicamente que: A esquerda terá que agradar cada vez mais e fazer cada vez mais cedências aos PSD, porque eles são os únicos que impedem o Ventura de ganhar. O Chega tem a sua base de 20 a 30% consolidada, mas não passa daí. Nem vai passar, porque em nenhum país europeu a extrema direita tem mais do que 30% dos votos, mais ou menos. Analisando o caso mais extremo, Hitler teve apenas 30% na 1ª ronda e 36% na 2ª ronda e com isso conseguiu estabelecer uma ditadura através de outros métodos "menos democráticos".
8 ) Montenegro tem o poder. Ele decide literalmente se o Chega ganha ou não. Na teoria de jogo chama-se a esse jogador o "Kingmaker" (fazedor de reis). O "kingmaker" pode não ganhar, mas decide quem ganha. E a malta PSD são os "kingmaker" em Portugal.
Informação adicional: Esta análise serve para a maioria dos países europeus. Os partidos de "centro-direita" são os "kingmakers" da actual situação política actual. Não ganham, mas decidem quem ganha. Ontem decidiram que Seguro ganhou.
Eleições em período de ditadura. Um paradoxo? (02.02.2026)
Cá estamos em período de eleições. E cá vai mais uma reflexão, um paradoxo do nosso mundo.
Sabiam que os ditadores adoram eleições? Que os ditadores nunca aboliram as eleições? As pessoas diziam: "Durante uma ditadura não existe democracia." E as pessoas pensam: "Ah, então não se votava, certo?" Errado. Votava-se, mas apenas candidatos e partidos e votantes selecionados. Na sequência disso, o nome oficial da Coreia do Norte é: "República DEMOCRÁTICA da Coreia do Norte." (( 조선민주주의인민공화국 Joseon Minjujuui Inmin Gonghwaguk)) onde: "민주주의 (minjujuui):" significa: "Democracia" (ou democrática)
Sim, a Coreia do Norte tem democrática no nome. E também tem eleições. A cada 4 ou 5 anos as pessoas juntam-se, fazem uns pseudo-boletins e sem surpresas, o ditador é eleito.
Isto sempre me fez comichão. Mas se é ditadura, porquê o "teatro"? Porque é que os ditadores continuam a fazer o "teatro" de serem democráticos? Não seria mais fácil dizer: "Olhem, sou o ditador, escusam de andar aí com boletins e tal, podem ir para casa descansar hoje. Tirem um dia de folga."
A resposta é simples: porque é um jogo psicológico com a população. O rei vai nu, mas não se pode dizer que vai nu. Porque isso seria inaceitável. Ou seja, vive-se a mentira e tem que se acreditar nessa mentira, ritualiza-se a mentira. Ou seja, todos os ditadores de vez em quando têm que fazer "pseudo-eleições" para "regularizar" o regime.
Portanto, o ditador nunca vai dizer que "não gosta de democracia" ou que "vai abolir as eleições". Nunca nenhum ditador aboliu nenhuma eleição. As eleições ocorrem e sempre ocorreram. Até nas ditaduras. O que o ditador diz, no entanto é o seguinte:
"O país está numa má situação, temos que regularizar a situação. Temos que regularizar e monitorizar bem as eleições. Temos que nos certificar que só os bons cidadãos votam. Porque se os maus cidadãos votarem, então teremos uma má sociedade, e nós não queremos má sociedade, por isso vamo-nos certificar que só as pessoas correctas votam."
Portanto: Eleições sempre haverá. Com ditador no poder ou sem ele. A questão é quão livres serão essas eleições, quem poderá e não poderá votar. O importante é que continue a haver o "teatro" da eleição. Isso nenhum ditador poderá prescindir. Sem o "teatro", o regime colapsaria.
O ditador finge que estamos em democracia. As pessoas fingem ir votar. E assim vai o rei nu.
Temos todos que fingir que a extrema-direita na Europa é democrática para não ferir susceptibilidades (é apenas mais um partido...). E a extrema-direita finge ser democrática também para não ferir as susceptibilidades (votar é fixe e tal, mas bandalheiras não queremos...). E assim se continua. E assim continuará.
Mas o rei vai nu...
O paradoxo de hoje: Os imigrantes portugueses e as eleições. (19.01.2026)
Como sabem, sou MEGA FÃ de paradoxos. Talvez alguns de vós leram as notícias: “Imigrantes votaram no André Ventura”. Sim e não. Vamos analisar em detalhe.
Existem 6 países de tamanho significativo onde André Ventura, de facto, ganhou mais votos, Canadá, Suíça, Estados Unidos, França, Luxemburgo e Brasil. Clara vitória se tomarmos em conta esses países específicos.
Mas os imigrantes portugueses que vivem no Reino Unido, Alemanha, Holanda, Bélgica, Suécia e Itália (entre outros)… Todos esses votaram no Seguro com uma clara vitória. Ui, o que se passa aqui?
Surge logo a pergunta? Porquê? A verdade é: não sei. Mas cá vai mais uma boa. E os portugueses em “terras espanholas”? Nuestros hermanos aqui do lado? Seguro ou Ventura? Nenhum. Cotrim Figueiredo (40%). KABUMM, a quebrar todas as expectativas.
E se formos ao continente Asiático? Também vivem portugueses na Ásia. De quem é que eles gostam? Ventura, Seguro, Cotrim Figueiredo?
Estão prontos para a resposta? Segurem-se que esta é boa.
Marques Mendes (30%). Sim, Marques Mendes a somar pontos na Ásia. Quem diria… Quando pensamos que entedemos, afinal não entedemos é nada disto.
Moral da história: Os imigrantes Portugueses são uma mistela de gente que ninguém entende. Se alguém souber a explicação para isto digam-me porque sou todos ouvidos.
Portugueses no estrangeiro são apenas 4% dos votos por isso não se aflijam muito que a gente não decide assim grande coisa. Só escrevi o texto para que quando leiam os jornais terem uma visão mais “detalhada” do voto imigrante.
Notícia de última hora: “Aliados europeus enviam tropas para a gronelândia.” (16.01.2026)
A realidade:
França : 15 soldados
Alemanha: 13 soldados
Suécia: 3 soldados
Finlândia e Noruega: 2 soldados cada
Mas o melhor fica para o fim.
Reino Unido e Holanda: 1 Soldado. Sim. Um único soldado. Para “vigiar e controlar a situação.”
Faz-me lembrar os trabalhos de grupo na escola em “área de projecto”, quando havia sempre um que dizia: “Não se preocupem malta. Eu faço o índice! Vocês fazem a pesquisa e o resto.” E depois recebíamos todos a mesma nota no final do ano.
Notícias da Alemanha: (11.01.2026)
Tem nevado intensamente na Alemanha (e na Europa central em geral). Mas na verdade o fenómeno é bem raro. Não costuma acontecer. O que me surpreende é que de repente saem-me os alemães à rua DE TRENÓ. E podia ser um ou dois. Não, são dezenas de crianças a brincar com os trenós na neve. Deviam estar na garagem a apanhar pó. É que é tão raro haver neve suficiente para andar de trenó, pelo menos na região onde habito.
E é interessante que para os portugueses, a neve é um sofrimento e causadora de mal-estar, mas na Alemanha, adultos e crianças, adoram ver neve e divertir-se e fazer bonecos de neve e andar ás voltas com o trenó.
Por isso o Francisco português quer estar em casa, sem fazer nada, com os aquecedores ligados, enquanto o Francisco alemão quer ir para a rua respirar o ar puro, fazer uma caminhada matinal e brincar na neve.
O SEGREDO QUE NINGUÉM SABE: "Aprender música é ilegal." - Este título NÃO É clickbait. (12.12.2025)
"Começa o dia como habitual. O professor de música chega à escola como sempre e encontra-se no corredor com o aluno, bem pontual, que já o espera. O aluno vem fascinado com o novo hit da banda rock do momento. Apesar da música envolver guitarras com distorção, o aluno toca piano. O professor adapta a música para o instrumento do aluno. Ambos divertem-se na aula. Mal sabiam eles que a polícia já estava a caminho. Sirenes ouvem-se lá fora. Chegaram. É o fim. O professor vai preso."
Pronto, o Francisco agora escreve ficção científica, queres ver? A nova versão do 1984. Uma história inventada sobre uma sociedade utópica onde aprender música é ilegal. Algo de filme, certo? Pois. Na verdade, não é ficção científica nenhuma. É a realidade de hoje. O meu trabalho consiste em diariamente cometer actos ILEGAIS. Isto não é clickbait, não é um exagero. É um facto, um segredo que ninguém admite, nem quer admitir. Uma conspiração secreta que vos vou revelar.
"Pronto, vais falar de fotocopiar notas, certo?" - Não. Isso é só a ponta do iceberg. A conspiração vai muito, muito além disso. Passo a explicar:
- Eu sou compositor. Imaginemos que escrevo uma música para gaita de foles. Mas alguém, no mundo, sem a minha autorização, decide tocar a música QUE EU COMPUS para gaita de foles na flauta de bisel SEM PEDIR A MINHA AUTORIZAÇÃO. Isto é ilegal. Ponto. Ou seja, em termos práticos. Se queres tocar Ed Sheeran ao piano, tens que pedir a autorização do Ed Sheeran para tocares isso ao piano. A editora tem que aprovar o arranjo e só aí podes tocar Ed Sheeran ao piano. Se o professor de música te ajuda nesse processo, então ele é cumplice nesse crime musical.
Solução: "Então compra uns arranjos oficiais de Ed Sheeran para piano já feitos." Certo. Possível. Mas, muitas vezes os arranjos são bem difíceis. "Shape of you" em Dó# menor com 4 sustenidos na armação de clave... ui ui. O aluno vai ter problemas. Se calhar há talvez uns acordes aqui e ali que podiam ser simplificados. O professor tenta "facilitar" e "re-arranjar" a partitura, que foi, obviamente, legalmente comprada! Outro crime, porque lá está, de novo a mudar notas ou a fazer "re-arranjos" da música sem consentimento do autor. Compraste em Dó# menor, logo é para tocar o que foi publicado, não é para mudares as notas, mesmo que seja difícil para o aluno.
Mas vamos dizer que o aluno lá aprende a versão oficial (depois de muito treino) e a escola de música faz um concerto onde o dito aluno toca a música do Ed Sheeran. E para celebrar a ocasião, convidam-se amigos e família. Um concerto GRÁTIS, sem venda de bilhetes. Tudo legal, certo? Não. A editora tem que aprovar a realização do concerto!
- "Ui, mas porquê tanta regra?". Então, imaginemos que é um concerto em homenagem aos "neo-nazis de Vila Nova Real da Baronia", e o nome do Ed Sheeran fica agora manchado porque foi lá tocada a música dele, ilegalmente, sem autorização. Agora todos pensam que o Ed Sheeran é neo-nazi porque o aluno de piano era de uma organização neo-nazi. O artista tem o direito de recusar ser associado a certos eventos. Daí, a editora tem que aprovar essa performance. Mesmo que seja uma criança numa audição de escola. Senão, lá está, ilegal.
Esta ilegalidade é muito falada no discurso quotidiano quando um POLÍTICO usa a música de uma banda para espalhar uma mensagem política: "VOTEM EM MIM." Logo, a lei existe por motivos lógicos. Talvez o compositor deteste o tal político. Mas tudo isto, automaticamente faz com que fazer o meu trabalho seja "ilegal".
Portanto, a "ilegalidade" do trabalho de professor de música vai MUITO ALÉM de "fotocopiar partituras". O nosso trabalho tem várias etapas de ilegalidade do início ao fim. "Tirar uma música de ouvido", escrever as notas à mão e dar ao aluno também é ilegal. É como se eu ouvisse o audiolivro do Harry Potter, escrevesse a história e desse a história ao aluno. Agora ele já não vai comprar o livro do Harry Potter. A JK Rowling acabou de perder dinheiro.
Quase tudo o que envolve "aprender música" consiste em cometer diariamente actos ilegais. Ilegalidades a torto e a direito. Teoricamente cada nota errada no concerto também é uma ilegalidade porque notas erradas e ritmos fora de sítio de certeza que não serão aprovadas pelo autor e este não ficará muito contente de ver alunos a "massacrar" o seu "magnum opus". E depois filmar, sem autorização, e depois colocar na internet, ui, publicação não autorizada E AINDA POR CIMA COM NOTAS ERRADAS. Então acertámos no jackpot das ilegalidades. Sentença directa em tribunal.
Para finalizar, deixo um pensamento provocativo, para os amantes de ficção científica: "O chefe Henrique Sá Pessoa faz os seus programas de televisão onde mostra os seus dotes de chef e até publica os seus livros com receitas. Imaginemos que eu tenho que pagar ao Henrique Sá Pessoa cada vez que cozinho bacalhau à brás. Imaginemos também, que se quiser mudar a quantidade de azeite e alho, também tenho que lhe comunicar isso. E imaginemos que se eu apontar a receita dele num papel e a fotocopiar, também tenho que pagar. E se convidar os meus amigos e fizermos uma jantarada com a receita dele, também tenho que lhe pagar." Tudo isto é ficção científica, certo?
Seguir as regras: Uma escolha ou uma inevitabilidade? (06.12.2025)
Parte 1:
Aula de grupo (pequeno). 6 pequenos instrumentistas à minha frente. Tinha mandado uma canção simples para estudarem. 3 alunos estudaram, trabalharam, dedicaram-se e os outros 3 não estudaram, não estavam preparados. O que fazer?
Bom, elogiei os alunos que se esforçaram e disse: “Então temos que tocar a música mais lento (velocidade caracol como gosto de dizer) e esperar um pouco que os 3 alunos mais desleixados pratiquem um pouco para poderem acompanhar.” Reagi calmo e sereno.
Naquele momento, vi a cara dos 3 alunos dedicados mudar. Um sentido de injustiça, de incredibilidade assalta-os. Um deles exclama: “Então era possível não estudar a música? Não há castigo?” A pergunta diz tudo.
Parece absurdo, mas quando vemos de uma família onde as regras são cumpridas, o TPC é feito a tempo e horas e as crianças ajudam nas tarefas domésticas, ser preguiçoso nem sequer entra como “uma possibilidade”. Porque “não fazer” não existe. Seria como não lavar os dentes todos os dias, é algo que se faz e ponto. Mas rapidamente as crianças se apercebem que, na escola, no dia a dia, as regras PODEM ser violadas. Porque os colegas violam as regras! O TPC pode não ser feito, e o quarto não precisa de ser arrumado. Mas as crianças nem sequer sabem que têm esse cenário de rebeldia como uma possibilidade. Até ao momento que entram na escola e os colegas são piores que eles.
Naquele momento, a ingenuidade quebrou-se e acabou-se a perfeição. Porque na verdade, a partir daquele momento, sabem o que aconteceu? Agora tenho 6 alunos que não praticam a música, porque aprenderam “que não é preciso estudar a música porque o prof até é fixe e compreensivo e nem ralha assim tanto.” A minha calma e pose serena naquele dia foi o que fez o grupo descambar para a “bandalheira”. Trabalhar, fazer o TPC, lavar os dentes e arrumar o quarto dá trabalho. As crianças que o fazem é porque ainda não descobriram a “liberdade”. Que, nós, seres humanos, temos “escolhas”, que podemos escolher “guloseimas” ou “bróculos”. E obviamente que as guloseimas sabem bem melhor se me derem a escolha! Quem escolhe bróculos? Só os totós!
/-/
Parte 2:
As religiões e as suas respectivas regras.
No Corão existe o ramadão. Na Bíblia, a quaresma.
No judeísmo várias carnes vermelhas são proibidas. No hinduísmo, a vaca é sagrada e não se come.
Todas essas religiões condenam o sexo antes do casamento e todas elas não aprovam as relações de carácter homossexual. Aí, parece não haver ambiguidades entre elas.
Na Bíblia também está escrita a regra que os donos da casa devem lavar os pés dos convidados como gesto de boas vindas, assim como Jesus fez. Os muçulmanos também se lavam antes de rezar.
Resumindo: Existem muitas regras que são muito parecidas (para não dizer iguais). Lemos os vários livros sagrados e todos têm a mesma receita, com variações aqui e ali. Mas há uma diferença crucial:
Em Portugal ( e na Europa em geral) existem católicos, mas esses católicos não fazem a quaresma, não lavam os pés dos convidados, nem tendem a prescindir de carnes vermelhas. Os muçulmanos, pelo contrário, rezam 5 vezes por dia, lavam-se antes da reza e continuam a fazer o ramadão, por muito que custe e seja desconfortável.
É como se nós tivéssemos descoberto que se “podiam quebrar as regras e ser católicos/crentes na mesma” mas os muçulmanos não fizeram ainda essa descoberta. Não dá para fazer ser muçulmano e rezar três vezes por dia em vez de cinco. É cinco e ponto final parágrafo! Se Deus disse, está dito. Da mesma forma que os meus alunos “dedicados” não tinham descoberto que era possível não fazer o TPC. Se há TPC, é para fazer.
Os católicos são diferentes. Nós descobrimos que a Bíblia tinha que ser “”interpretada””. Ou seja, quando o professor diz “faz o trabalho de casa” o aluno maroto diz “pois, mas o professor não disse se era para fazer com lápis ou caneta, logo não fiz!” (Santa paciência!) Quando a Bíblia diz “durante 40 dias, nada de carne às sextas-feiras”, nós hoje em dia “”interpretamos”” isso de uma forma… mais… “simbólica”. Ou seja, é mais o “simbolismo” da coisa, não é assim tão literal. É o “simbolismo” de não comer a carne à sexta-feira, não queiramos agora ser uns fanáticos. O importante é acreditar em Deus e pronto, é isso. Acredito, sou católico. Com ou sem carne à sexta-feira. Isto para um português ( ou europeu) pode parecer “senso comum” mas esta visão do mundo é algo de extremamente recente. Antigamente não havia nada para “interpretar”. Era seguir o texto escrito e pronto. Deus disse. Está dito. Sic dictum est.
Descobrimos o pecado. Comeu-se a maçã. E agora já não há volta a dar.
(E dêem-me paciência para alunos que não fazem o TPC.)
Etimologia Islandesa (16.10.2025)
O texto de hoje é algo super relevante para as nossas vidas. Etimologia islandesa. Entusiasmados? Impressionem os vossos amigos na próxima festa com esta curiosidade linguística.
A palavra “idiota” em islandês diz-se “Heimskingi”.
“Heim” é parecido com “Home” (Casa). Essa parte percebe-se. Heimskingi seria “a pessoa que fica em casa” , ou seja o “não-viajante”. Vem do tempo dos Vikings, onde obviamente o Viking mais sábio seria aquele que mais viajasse, com o tempo “pessoa que fica em casa” ganhou o significado de “idiota” na cultura islandesa.
Em português, “idiota”, ao contrário do que muitos dizem, não tem a ver com ter ideias, mas vem do grego ἰδιώτης (idiṓtēs), que seria “pessoa comum”/“pessoa que não exerce uma função pública”. Portanto, o idiota seria o indivíduo que não participava na vida pública (pólis).
Más notícias para os mais introvertidos e reservados. Que destino trágico a história lhes deu… insultados a torto e a direito…
“Flotilha, direita conservadora e homossexualidade - Um paradoxo” (11.10.2025)
No rescaldo do famoso episodio da novela “Flotilha em Israel” uma das críticas que a direita conservadora aponta ao grupo de activistas é o seguinte:
“Esta malta de esquerda anda aqui a defender o Hamas que não respeita as mulheres, não respeita os homossexuais, não respeita os nossos valores Europeus de respeito mútuo.”
Este argumento requere uma certa ginástica mental, porque NORMALMENTE, a direita conservadora diz: “Temos de defender valores tradicionais” e aí, direitos dos homossexuais é tipo, deixado de lado, homossexuais terem direitos, igualdade de género, tudo isso não entra nos “valores tradicionais” quando fazem a sua campanha política. Mas quando um árabe entra na Europa, aí a direita conservadora faz uma marcha atrás, rotação de 180 graus, de repente igualdade de género e homossexuais terem direitos já é algo “europeu”, que temos “de defender”. Temos de defender a nossa cultura “europeia” de igualdade de género. Sim, a direita conservadora a defender a igualdade de género e os homossexuais… Mindblown!
Os conservadores querem os “valores tradicionais” mas se for um estrangeiro a impôr esses mesmos valores “tradicionais”, já não os querem e de repente já são “progressistas”.
E a cena é que, felizmente, na Europa em geral, há mais igualdade de género, menos homofobia, etc APESAR da oposição da direita conservadora. Porque, pronto, enfim, é a sua ideologia, e tudo bem, cada um defende a sua ideologia. Mas de repente se um homossexual for discriminado na Arábia Saudita, isso aí sim, já é inaceitável.
Como explicar isto?
A política é complexa porque a pessoa tenta entender a lógica, mas é difícil porque a política está repleta de paradoxos. Quando achamos que entedemos algo, afinal não entedemos.
Fica esta para reflexão, quando virem os conservadores a defender os direitos dos homossexuais um dia e a criticar o mesmo tema uma semana depois, já sabem interpretar melhor a situação. De vez em quando o guarda-redes joga a ponta de lança e até pode marcar golos, tudo é uma surpresa.
Durante a aula: (11.10.2025)
Aluno: “Não gosto nada desta música.”
Eu: “Mas foste tu que a escolheste! Disseste que era a tua música preferida do livro!”
Aluno: “E era! Mas agora tenho que a estudar, então já não é…”
“Justiça - Olho por olho, dente por dente”. (02.10.2025)
Acho que todos conhecemos o seguinte filme de máfia: Pessoa X mata Y. Os amigos de Y querem VINGANÇA, JUSTIÇA. Logo, conclusão, os amigos e familiares de Y vão matar X. Fim da história? Não, errado. O filme nunca acaba nessa parte!
Agora, os amigos e familiares de X vão matar os amigos de Y, porque eles também estão tristes e acham “injusto” pois os amigos de X não fizeram nada e sofrem também. E assim se podem fazer sequelas intermináveis de filmes de Mafia “”Vingança Eterna - Parte 7””já disponível nos cinemas perto de si.
Isto despoleta uma reação em cadeia IMPARÁVEL, porque toda a gente vai ter sempre um amigo ou familiar que quer justiça e “igualdade”. E “igualdade” é até ambos os lados da balança se equilibrarem. Uma carnificina. Que se desenvolve porque UMA Pessoa cometeu um acto criminoso no início do filme. Mas a busca e a sede de “justiça” faz com que ambos os lados busquem a resolução de um conflicto que nunca se vai resolver.
Agora, eis a parte que os católicos entre vós, vão gostar, daí aparece Master JC, Jesus Christ, que diz: “Devemos perdoar os inimigos, oferecer a outra face.” Bom, moralidades e teologias à parte, na verdade o “não fazer nada”(“perdoar”) é a única forma de se avançar para a frente. A sociedade tem que “decidir” ter amnésia colectiva e simplesmente “desistir” de procurar justiça. O conceito de justiça - “olho por olho, dente por dente”, matematicamente e logicamente falando, é uma reação em cadeia que não vai resolver nada. Como o filme “”Vingança Eterna - Parte 7”” demonstra.
Fim da análise teórica. Passando para o mundo real.
É interessante como em vários países que passaram por ditaduras onde pessoas maltrataram outras pessoas: Portugal, Espanha, Alemanha, Itália, entre outros, há um consenso tabu em, entre aspas, “esquecer” quem foi polícia na PIDE, na STASI alemã ou no movimento fascista italiano. Este “esquecimento programado” , combinado com uma aura “tabu” sobre o tema é fundamental para que a sociedade avance. A procura eterna da justiça, quem matou quem e quando e como; vai eternalizar sempre um conflicto.
No entanto fica sempre um sentimento de… “Pessoa X não pagou devidamente pelos seus pecados”, porque necessariamente, para um conflicto terminar, vai ter sempre que haver um lado que não “obteve justiça”. E por isso é que paz, perdoar, e seguir para a frente é tão difícil. Porque parece “injusto”. Mas sem esse sentimento de “injustiça”, não haverá paz. Paz requer “injustiça”, por mais paradoxal que pareça.
Espero que gostem do texto, tive que terminar com um paradoxo, pois sabem que criar paradoxos é a minha actividade preferida.
A minha experiência sendo analfabeto - Uma reflexão sobre o analfabetismo. (08.09.2025)
Sim, é verdade, o título não é mentira nenhuma. Leram bem. Eu, Francisco, sou analfabeto. Ou seja, falo e entendo uma língua que não sei ler nem escrever. Vivo com isto todos os dias. E quero apresentar e relatar a minha experiência na primeira pessoa.
Como funciona o meu analfabetismo?
Gosto de ver vídeos em russo e entendo a maior parte das coisas, e, obviamente, gosto de ler os comentários debaixo dos vídeos. Mas não os consigo entender. Tenho que fazer um esforço enorme e demoro muito tempo a ler coisas simples. Ou seja, não sou 100% analfabeto em russo (o alfabeto russo é muito simples de aprender, a dificuldade não é bem daí...) e leio e identifico palavras. Mas um texto longo e elaborado... difícil.
Nos nossos telemóveis existe um botão chamado: "TRADUZIR ESTE COMENTÁRIO" e estou sempre com um stress interno.
"Francisco, tens de praticar o russo, não carregues, NÃO CARREGUES NO BOTÃO, TREINA O CÉREBRO, AHHH". Já carreguei. "OK, agora SEM LERES O COMENTÁRIO TRADUZIDO DE-SELECIONA O BUTÃO AGORA!! JÁ!". Isto é a minha batalha cibernética diária lendo coisas em russo.
Há uma grande "fantasia" na cabeça das pessoas. Fantasia essa que, infelizmente, "raramente" acontece. Vou desmistificar e acabar com essa fantasia. Vou dizer às crianças que o Pai Natal não existe (já estou preparado para os comentários, venham eles!). E a fantasia tive-a eu. Começa com a seguinte frase:
"Vou aprender língua X para poder ler os grandes escritores na língua original." Digo já, que isso é, quase impossível para uma pessoa que aprendeu a língua em adulta e não passou pela escola na língua "alvo". Seria como dizer a um americano que se mudou para Lisboa, para ele "aprender português e assim ler os Maias." Como exemplo, a minha avó falava português mas não conseguia ler os Maias. Isto porque:
"Ler os Maias" e "falar português" são duas coisas diferentes. E poucas pessoas entendem isto. Uma criança de 10 anos sabe ler e escrever o seu nome, textos simples, mas não consegue ler "os grandes escritores". E ser analfabeto em russo é isso. Saber escrever o meu nome, coisas básicas, mas não conseguir ler "grandes escritores" como Tolstoi ou Dostoievsky. Um imigrante pode estar 10 ou 20 anos na Alemanha, falar alemão fluente e simplesmente ser incapaz de ler Nietzsche. E é uma pena, porque eu adoro Nietzsche, mas o tipo parece que inventa palavras e desconstrói a língua alemã em cada página! Agh! Apenas li Nietzsche em português quando era adolescente... e na altura lembro-me... bem difícil!
O analfabeto não tem prazer na leitura. Eu tenho zero prazer em ler coisas em alemão porque tenho que fazer tanto esforço mental, que nem consigo disfrutar da leitura. Em russo o prazer não é zero. É negativo. É tortura mesmo. O problema não é a "Anna Karenina" ter quase 1000 páginas. É eu demorar meia hora e ter meio AVC cada vez que tento ler uma dessas páginas. Porque, lá está, sou um analfabeto. E a vida de um analfabeto é assim. Enquanto posso ler 1000 páginas em português ou inglês sem problema.
Como disse, entendo muitos vídeos, mas quando intelectuais ou políticos falam (em russo) tenho mesmo dificuldade em entender e certas coisas "escapam-me". Porque a linguagem simplesmente não é a mesma.
Exemplo concreto: em vez do Vladimir Putin em discurso dizer: Украины никогда не существовало. - "A Ucrânia nunca existiu". Uma frase simples e fácil de entender. 4 palavras. O Putin diz:
"«Не только дети, но и многие взрослые, похоже, не знают, что до образования Советского Союза Украина никогда не имела своей государственности. Такого государства не было."
Tradução: "Não apenas as crianças, mas também muitos adultos, aparentemente, não sabem que, antes da formação da União Soviética, a Ucrânia nunca teve sua própria estatalidade. Esse Estado simplesmente não existia." 25 palavras. Epa, para um analfabeto, ter que decifrar 25 palavras, sendo uma delas: "Estatalidade"... desespero.
O analfabeto navega o mundo assim. Sente-se como uma fraude. Porque sim, entendo, sim, falo a língua. Mas ao mesmo tempo, não entendo nem falo a língua. Um paradoxo (já sabem que eu adoro paradoxos!). O meu pai conta-me histórias da família, há muitos anos atrás, analfabetismo no Alentejo era normal. E na família do lado do meu pai havia analfabetos e o meu pai conta-me histórias engraçadas sobre esses tempos. Um deles dava porrada nos filhos para eles irem à escola. Não queriam que fossem como ele. Imagino o que ele sentiria... Mas, acalmem-se, prometo não dar porrada nos meus filhos e obrigá-los a ler russo.
O paradoxo do artista. Trabalhar mais = mais sucesso? (06.09.2025)
Como sabem, adoro paradoxos. Hoje cá vai mais um, que se aplica muito ao artistas e escritores. Confroto-me com este paradoxo desde sempre na minha vida profissional.
Todos sabemos que um livro de 600 páginas não é 3 vezes melhor que um livro com duzentas. O livro de 600 páginas demora, teoricamente, 3 vezes mais a ser escrito, mas não é necessariamente 3 vezes melhor. Na música, igual, uma sinfonia de hora e meia não é 3 vezes melhor que uma sinfonia de apenas meia hora…
Sendo isto verdade, porque é que se ainda escrevem livros com 600 páginas e sinfonias de hora e meia se dão muito mais trabalho e não são necessariamente melhores?
Seria como um trabalhador trabalhar o triplo das horas numa empresa e receber o mesmo salário… Não faz muito sentido. Para isso trabalhamos todos menos!
Se calhar não é o tamanho do livro mas a quantidade de palavras. Muitos teóricos das artes adoram esta abordagem. “Proporção de palavras novas vs recicladas”. No caso da música: Número de acordes. Mais acordes por segundo, mais complicado, melhor. Bach tem mais acordes por segundo que Vivaldi, logo Bach superior a Vivaldi. A matemática a resolver o debate artístico.
Todas estas análises “quantitativas” infelizmente não se aplicam na arte. Como um engenheiro usar uma régua para medir a temperatura da água. O padeiro trabalha o triplo das horas, amassa e coze o triplo dos pães, faz o triplo do dinheiro. tudo lógico, matemático e exacto. No entanto, na música, existem sinfonias que deram muito trabalho e foram um fracasso (ex: 1a sinfonia do Rachmaninoff) e sinfonias que se escreveram em 4 dias e foram um sucesso (ex: Sinfonia Linz - Mozart).
Entre os músicos jazz, existe o conceito de “overplaying” (tocar demasiado). Tocar tantas notas nos solos que estraga a música. Como um pintor usar tantas cores que borra o quadro. Isto acontece porque na mente do artista há sempre uma frase que nos alarma o espírito: “Se eu trabalhar mais nisto, isto vai ser melhor.” ou a frase inversa: “Isto não me deu trabalho nem requereu grande esforço, logo deve ser uma porcaria.”
Moral implícita: Se nos esforçámos, então o resultado artístico é bom. Desde criança nos é incutido isto na escola. O esforço é sempre mais importante que o resultado… Acho que todos já ouvimos algo do género, certo?
Infelizmente, a arte não obedece a leis da lógica. Não há nem existirá lógica no mundo artístico. Detectar o “bom” do “mau” é uma luta constante, porque o “ego” nos assalta o espírito. Olhar e ver a verdade é difícil. E por vezes, o público, ignorante e alheio ao processo creativo, é o que consegue olhar objectivamente para o produto artístico, sem preconceitos e pré-julgamentos. Por vezes, a beleza da música está lá, mas como tem “poucas notas” não a vemos. O paradoxo do artista. O cozinheiro que fica a mexer e remexer no arroz aré ficar tudo uma papa sonsa. Não fazer nada por vezes dá melhores resultados. O sonho de qualquer preguiçoso. A inação como virtude…
Um dos maiores choques culturais sobre os quais ninguém fala. (29.08.2025)
E começa com a pergunta mais básica de todas:
"Como te chamas?"
Em Portugal (e Espanha) temos o nosso nome "João" ou até vários "João Manuel" (opcional) seguidos do apelido (último nome) da mãe e do apelido (último nome) do pai. Tudo normal, certo?
ERRADO! Nada disso é normal. Tirando Portugal e Espanha (e as respectivas ex-colónias dos mesmos), NENHUM PAÍS tem essa tradição. É verdade! Desde Ásia, África, Europa e até tribos da oceânia. Nós e os espanhóis somos únicos nisso. Sim, ÚNICOS. MIND-F***-BLOWN.
"Mas então como se faz nos outros países?"
Simples: A tradição é: Há um primeiro nome e um último nome. E acabou.
"E como se decide se é o nome do pai ou da mãe?"
Tradicionalmente, em 99% dos casos, o do pai (sociedades matriarcais são mesmo muito raras, infelizmente, mas existem!). E em casos mais recentes, também pode ser o da mãe. Isto dá origem a situações caricatas na escola onde trabalho. Dois irmãos com apelidos diferentes. Um tem o do pai e o outro tem o da mãe. Pelo nome não dá para ver que são irmãos. E isto é NORMAL em qualquer outro país (excepto Portugal e Espanha). Como trabalho para o estado alemão, por motivos legais tenho sempre que declarar os dois apelidos e tenho que estar sempre a explicar que na península ibérica ISTO É O NORMAL e os alemães estão sempre perplexos e incrédulos comigo (!). Uff! Mãe e pai. 2 nomes. Parece lógico, aparentemente, para o resto do mundo não é.
Dito isto, agora vem a melhor parte. "Porque é que somos assim? Porque é que somos diferentes?" Porque somos mais igualitários? Porque achamos que as mulheres merecem mais reconhecimento e igualdade entre géneros? Lamento destruir a vossa ilusão, mas nada disso. A explicação é simples: Igreja e Inquisição.
A Inquisição e a Igreja católica queriam distinguir quem tinha "sangue puro" de quem não tinha. Quem não tivesse... enfim, iria para a fogueira na praça pública. Se um homem se envolvesse com uma mulher "não pura" e os filhos não tivessem o apelido dessa mulher, seria difícil detectar "de onde vinham esses filhos". Então foi estipulado pela Igreja que cada nascimento teria que ser sempre registado com nome da mãe e do pai (por vezes até avós, em Espanha é comum haver nomes bem longos). Mais fácil detectar os hereges assim. Depois, o Estado (laico) adoptou esta prática também para facilitar os registos.
Logo, a prática que consideramos hoje de "igualitária", na verdade vem de um passado e lógica bem racista. Interessante, não?
Espero que gostem do texto de hoje. E não se espantem quando alguém ficar incrédulo que TODOS os ibéricos tenham dois nomes. Nós é que somos os estranhos.
(não abordei o caso da Islândia e Rússia que também são interessantes de analisar, mas isso fica para outra vez, senão fica o texto muito longo...)
Há dois dias foi inaugurada a “Estátua do imigrante” em Entradas, terra natal do meu pai. (29.07.2025)
Um monumento simples mas bonito a homenagear os imigrantes da região que já desde os anos 60 saíram do país.
Hoje em dia nas notícias só se fala em imigrantes e estrangeiros e “expats” (expatriados). Que devem mudar, que têm que se integrar, que têm que adoptar os costumes, a língua e a cultura do sítio onde estão.
No entanto, temos que manter a nossa “essência” e “ser verdadeiros a quem somos” e não “esquecer o nosso passado”. Ou seja, não mudarmos, sermos as pessoas que éramos antes de imigração.
Um paradoxo, como vocês já sabem, adoro paradoxos.
Temos que mudar sem mudarmos. Temos que evoluir mas manter a tradição. Temos que criar o futuro mas olhando para o passado.
Só para Portugueses - Don’t bother translating (28.07.2025)
Fábula de férias:
Hoje é segunda-feira. Estou de férias mas não é feriado. O feriado festeja-se porque é uma espécie de festa. Logo, como é festa, festeja-se. Eu festejo o feriado. O feriado não se “feria”. Que absurdo!
Uma fera mitológica, sim, fere-se. Fere-se quando tem uma ferida. Quando a fera está ferida tem uma ferida. A ferida fere a fera. A fera não me fere. Só as feridas me ferem.
A fera um dia feriu-se. Eu também me feri. Mas não me feri no feriado. Feri-me, provavelmente, numa “qualquer-coisa”-feira. Foi uma infelicidade. Que se fez na cidade. A ferida fez-se em Felgueiras.
A minha ferida. Não a da fera. A ferida da fera fez-se em Santa da Maria da Feira.
Um dia, num dia de feira, um feirante viu a fera. A ferida da fera era feia. Uma feitiçaria foi feita pelo feirante e a fera ficou feliz. Já não havia ferida. Havia fera sem ferida.
“Fin fan fun”! Um feiticeiro feirante? Fogo! Que fixe! Fogo-fátuo fazia parecer a feitiçaria do feiticeiro feirante.” falaram todos.
Felizmente, ficaram finalmente todos felizes. Eu, a fera, o feirante... Todos a fervilhar de felicidade. Num feriado. De férias. Fim.
5% do orçamento de cada país para a NATO. Uma explicação do acontecimento. A mentira que todos sabem mas ninguém admite. (28.06.2025)
A notícia do dia é que os países da NATO têm que gastar mais em armamento. 5%. Quem é o chefe por detrás desta decisão? A resposta: Mark Rutte, ex-primeiro ministro da Holanda e presente secretário geral da NATO.
Primeira pergunta: Quem é o Mark Rutte?
Mark Rutte foi primeiro ministro da Holanda durante 14 (CATORZE!) anos. Sempre em coligações. Fez coligações com a esquerda, com a direita, com os capitalistas, com os ambientalistas, com os cristãos… enfim, o homem teve 14 anos no poder fazendo acordos e compromissos. E assim se manteve no poder. O homem fala com Deus e com o Diabo. Muitos poucos políticos têm essa capacidade. E ele agora tem um problema nas mãos: O Trump quer que os Estados Unidos saiam da NATO porque os outros países contribuem pouco para armamento.
A NATO sem os Estados Unidos está condenada. Adeus Ucrânia. Fim do jogo. Rutte sabe disso. Como é que ele descalça esta bota? Sem Estados Unidos acabou-se. Logo: prioridade número 1: agradar ao Donald Trump para não haver terceira guerra mundial.
Antes do acordo, os países da NATO tinham que gastar 2% do orçamento em armamento. Mas, na verdade, apenas um terço dos países cumpriram. Mais de metade NUNCA cumpriram com isso. Ou seja, está escrito, mas ninguém faz. Nenhum país foi “multado” ou “sofreu penalizações” porque “falhou o objectivo do 2%”. Ninguém foi expulso da NATO por não ter contribuído os 2%…
A minha teoria: “Para manter o Trump contente vamos escrever 5%”, mas secretamente, TODOS os presidentes e primeiros ministros sabem que o valor “não é para ser cumprido”. É um valor absurdo. Para alguns países envolve quase triplicar o orçamento. Ou seja, é “para inglês ver”. O Rutte sabe disso. O Trump fica contente e a Europa segue a sua vidinha…
Recuemos aos acordos ambientais de Paris. Assinou-se um documento onde diz: “Vamos reduzir o consumo de CO2”. Isto foi feito para os ambientalistas “ficarem contentes” mas não há multas, não há penalizações caso os países não cumpram com isso. Ou seja, escreve-se um “compromisso”, mas caso o compromisso seja violado, continua tudo na mesma. E apesar dos acordos de Paris não terem consequências nenhumas, o Trump RETIRA os Estados Unidos do acordo. Ou seja, isto revela que o Trump não entende “pseudo-acordos” (sem consequências em caso de incumprimento) de “verdadeiros acordos” ( com consequências em caso de incumprimento). Esta falta de noção do Trump joga a favor do Rutte,
Este compromisso,na perspectiva de Rutte, atinge os seguintes objectivos:
1) Coloca Trump no lado da NATO.
2) Estabiliza a Europa
3) Não custa dinheiro a ninguém, em portas fechadas, ao ouvido do primeiro ministro Espanhol, o Rutte diz: “Não te preocupes, a gente não vai expulsar a Espanha da NATO se não gastares 5%, isto é para pôr o Trump do nosso lado.”
Logo, com este acordo:
- Espanha continuará a ser NATO. Pedro Sanchez está a salvo.
- O Trump e Estados Unidos estão agora mais próximos da NATO.
- Putin não tentará invadir os bálticos num futuro próximo. Esses países continuam a ser seguros com um baixo risco de invasão russa.
- Maioria dos países não atingirá os 5%. Quando Donald Trump se aperceber disso, terá ele quase 90 anos (ele agora tem 79…). Estará mais velho com e com menos energia do que tem agora…
- Rutte está a “comprar tempo” com esta estratégia.
O próximo texto será sobre a relação irão-Estados Unidos e como isso beneficiará a extrema-direita nas próximas eleições europeias.
O que é “praticar/estudar o instrumento?” - Como a minha rotina mudou. (03.06.2025)
Sempre achei muito interessante a diferença entre géneros musicais, pop/rock, jazz, clássico e como o conceito de “estudar” é diferente nos vários géneros.
No caso do clássico, o que sempre fiz enquanto criança/adolescente foi:
1) Pegar numa peça extremamente difícil (impossível de ler à 1a vista), com a partitura.
2) Praticá-la até dominar essa peça.
3) Ocasionalmente praticar escalas e alguns exercícios técnicos.
No caso do Jazz, muitos músicos “estudam a improvisação”.
Quer dizer que praticam as escalas mas em quase todas as variações possíveis, estudam os modos (no clássico focamo-nos basicamente em Maior/menor e pronto). Eles não passam muito tempo a tocar um solo “nota por nota” até o terem perfeito, porque isso nem faz muito sentido.
Um músico do pop ou rock, vamos dizer, Guitarra eléctrica, por exemplo, pode passar horas e horas a procurar no seu amplificador/pedal de distorção o “som ideal” por exemplo. Para ele “estudar” pode ser aprender novas funções num possível pedal de distorção.
Um músico da área do hip-pop não vai aprender a recitar as rimas de outro rapper, porque no género “hip-pop” não existe o conceito de outro rapper”covers” (a não ser em termos de homenagem). Ou seja, não faz sentido o Sam the Kid recitar as rimas do Eminem. Mas no Pop é comum uma Lady Gaga cantar uma canção do Elton John e não há problema nisso.
E agora a questão? Que “estudo” eu agora?
De momento, os alunos e até em alguns concertos informais perguntam-me muitas vezes por X ou Y música que eu não conheço, e eu tento, no mínimo tempo possível, tocar a melodia e acordes na guitarra (ou piano), e fazer um “arranjo on the spot” de dita música. Ao início demorava muito tempo mas agora com a prática já consigo fazer relativamente rápido. Pegar numa songbook, que tem notas “não escritas para guitarra” e fazer daquilo um arranjo para guitarra é algo que no meu tempo de estudante pouco fiz ou pratiquei. Assim como “tirar músicas de ouvido”.
Logo, o conceito de “praticar” é muito vasto. Tu podes ser o mestre técnico das escalas, tu podes ser muito bom na leitura à primeirs vista, mas mau a apanhar “coisas de ouvido”. Podes ser bom a compôr e a descobrir novos sons mas ter uma técnica péssima no instrumento. Tudo faz parte e gosto sempre de me comparar com os meus colegas e ver em que pontos eles são mais e menos fortes que eu. Porque é impossível ser bom em tudo, então acabamo-nos por focar num “tipo de estudo”.
Posso dizer que em geral:
- Alunos bons a ler partituras são maus a apanhar músicas de ouvido e vice-versa.
O que é sempre interessante, porque quando me foco num dos aspectos, sei que o outro vai, quase necessariamente, piorar, porque são duas formas diferentes de aprender.
Como é que a vossa rotina de estudo mudou? o que é para vocês a palavra “estudar”?
"Deixem o senhor Hondt em paz." - A pseudo-intelectualidade no discurso político. (28.05.2026)
Espanta-me ler em alguns artigos alguns supostos "intelectuais" falarem constantemente do "método de Hondt". As suas crónicas são publicadas em jornais, lidas e seguidas, e lá vem mais um intelectual falar do sistema eleitoral português e como o "método de Hondt desperdiça votos e X e Y partido político saem prejudicados devidos a isso."
Bom, vou escrever curto e claro. O facto dos votos nos partidos pequenos (IL, BE, Livre, CDU, etc...) serem desperdiçados NADA tem a ver com o método de Hondt. A Holanda usa o método de Hondt e tem 15 partidos no parlamento. Portugal usa o mesmo método e tem 8 partidos (ou 9 se considerarmos PSD+CDS como 2 diferentes). Porquê esta diferença se o método é o mesmo?
Vou tentar explicar sem entrar em matemáticas aplicadas.
Portugal está divido em DISTRITOS e cada DISTRITO elege X número de deputados. O Alentejo elege por exemplo 3 deputados. Quer dizer que, matematicamente, votar no 4º partido mais popular é um voto desperdiçado. Matematicamente, porque só podem haver 3 deputados. Lisboa elege 48 deputados (mais população). Como não há 48 partidos, as probabilidades do voto ser útil são muito maiores. Vale a pena votar em partidos pequenos em Lisboa.
No entanto, na Holanda, não há DISTRITOS, os votos vão todos para o mesmo "saco". Significa que conta-se os votos NO GERAL e não dividido por distrito. Não há o "deputado eleito por Lisboa" ou o "deputado eleito pelo Alentejo". Há apenas deputados eleitos pelos Holandeses. Como os votos vão todos para o mesmo saco e não há divisão em distrito, os votos acabam por não ser desperdiçados. No caso holandês, há 150 deputados para todo o país, significa que mesmo que apenas 1% da população vote num partido, isso já seria suficiente para eleger um deputado.
Em Portugal tal regra faria com que o ADN (1,58%) tivesse representação. Teríamos mais um partido no parlamento e os deputados melhor distribuídos. IL tem 4,96% dos votos e 8 deputados e BE tem 4,36% dos votos e apenas 5 deputados. uma diferença de 0,50% não deveria reflectir diferença de 3 deputados.
O caso dos Estados Unidos é interessante e dramático, porque cada distrito (=estado) elege apenas UM partido com todos os deputados. Por exemplo, o PS ganhou em Lisboa com 27,73% e a AD em segundo com 27,04%. No sistema americano o PS receberia os 48 deputados e a AD não receberia NENHUM deputado.
Zero. Niente, nada.
Por uma diferença de 0,69%.
Mas os americanos dizem "viva a democracia". O "povo votou".
Moral da história: O nosso sistema não é tão mau como o americano, mas não é tão bom como o holandês.
Porque é que o sistema não se muda em Portugal?
Porque os portugueses têm imenso medo de "coligações". Com o sistema holandês, é impossível um partido ter maioria absoluta. O governo holandês é uma coligação de QUATRO (repito, QUATRO) partidos. Em Portugal, dois partidos coligarem-se é "tarefa difícil". Os Holandeses e alemães governam em coligações desde o final da 2ª guerra mundial.
Logo, os portugueses não querem mudar o sistema porque querem um partido com "maioria absoluta" e estão ainda super focados nisso. O problema é que na nossa sociedade, já não há "maiorias absolutas" nem vai haver. Mas nós ainda estamos com a mentalidade que "TEM que haver maioria absoluta senão é impossível governar".
Deixem o senhor Hondt em paz”.
Pedra papel tesoura. A solução mágica. (26.05.2025)
Durante uma pausa, entre aulas, duas alunas entraram na sala e queriam tocar piano mas apenas havia um na sala. Começaram a discutir uma com a outra. Eu estava na sala a tratar de uns emails e burocracias. Elas a gritar uma com a outra.
“Ok, façam pedra papel tesoura.”
Lá fizeram. Uma ganhou, a outra acalmou e foi-se embora fazer outra coisa. De novo paz na sala de aula.
Fiquei a pensar: “Wow a que perdeu aceitou o resultado e não fez birra…”
E fiquei a pensar que em vez de guerras, fazia-se tudo pedra papel tesoura. Putin e Zelensky numa sala, fazia-se várias rondas, uma para cada região ou território em disputa. Evitava-se derramamento de sangue, era tudo mais prático. Conflicto israel-Palestina, igual. Dois líderes numa mesa, pedra papel tesoura, quem perder cede o território ao outro. Tá feito. Acabaram-se as guerras, os dramas, os choros… Pelo menos na minha sala de aula resultou…
Porque é que as coisas que existem, existem? (20.05.2025)
Já olharam para uma prateleira de supermercado e pensado porque é que os produtos há produtos que estão à venda e outros não estão?
Pensamentos pós-eleições. Vamos a factos e tentar verdadeiramente compreender as coisas sem pseudo-moralidades à mistura. Sem entrar no campo dos "bons" e dos "maus".
Pergunta:
Porque é que existem empresas a criar "comida sem glúten"?
Resposta:
Porque há pessoas interessadas em comer "comida sem glúten". Essas empresas vêm um desejo no mercado (comida sem glúten) e criam um produto para satisfazer essa necessidade. Essas empresas criam investimentos, novos produtos e entram em novos mercados porque há pessoas com esse interesse e gastam tempo e dinheiro nisso.
Se na nossa sociedade, a "alergia ao glúten" é algo que não existe, então a empresa não existiria nem existiria o dito produto. Simples e fácil de compreender.
Se existe num supermercado "cortinas cor-de-rosa com manchas pretas e cinzentas" é porque alguém no mundo estará interessado em comprar isso. E se ninguém comprar, rapidamente o produto retira-se do mercado.
As grandes petrolíferas investem muito também em energias renováveis porque as pessoas procuram e consomem energias renováveis. Ou seja, em função da reação do mercado, as empresas "voltam-se" e mudam a sua estratégia. E TÊM que fazer isso, senão desaparecem. Por isso as "maléficas empresas petrolíferas" são as mesmas empresas que investem em energias renováveis. Os maus tornam-se bons e os bons tornam-se maus. Obviamente que na publicidade que passa na televisão lá vem a empresa petrolífera com a "boa moralidade" de investir em energias renováveis. Mas energias renováveis é um negócio e ponto. E se há clientes, então as empresas adaptam-se aos clientes.
Obviamente que esta mudança no "tipo de negócio" não acontece da noite para o dia e é necessário contratar novo staff, desenvolver novas técnicas, novos produtos, etc...
Na Europa, em geral, apresentou-se agora um novo produto: Um partido para malta que não gosta de imigrantes e que gosta dos "valores tradicionais" (diga-se de passagem que "valores tradicionais" na Suécia tem um diferente significado que "valores tradicionais" na Bósnia ou no Sri Lanka, mas prosseguimos...)
De facto, havia essa lacuna no mercado. Como o pão sem glúten. Racismo sempre existiu, mas não haviam partidos para essas pessoas. Agora há partidos. E esses partidos tem muitos votos.
O que é que eu tenho notado?
Especialmente na Alemanha, com a excepção dos Verdes digo eu, TODOS os partidos são anti-imigração (da esquerda à direita). Nas últimas eleições alemãs é só cartazes sobre "controlar fronteiras". Até dos "socialistas" (centro-esquerda) e dos "sociais-democratas" (centro-direita). Especialmente o novo chanceler alemão disse abertamente "temos que dizer o que a extrema-direita diz e fazer como eles senão não ganhamos votos". Na Dinamarca igual, a Dinamarca adoptou essa técnica e a extrema-direita tem menos votos, porque, no geral, os partidos tradicionais tornaram-se "mais racistas", logo, preencheram essa vaga no mercado e o produto "novo" não apareceu. O novo chanceler alemão basicamente disse que isso "era o caminho a seguir". Uma opinião polémica, obviamente que muitos são contra essa opinião. Mas foi o que aconteceu.
Em Portugal, as coisas temporalmente estão sempre meio-desfasadas, mas acabam por ir pelo mesmo caminho. Os partidos tipo PS, e Iniciativa Liberal serão os primeiros a fazer a "transição". Depois, seguir-se-ão os demais. Vai haver alguém do PS, na sede do partido, que vai "reflectir sobre o resultado das eleições" e vai chegar à seguinte conclusão:
"Se fôssemos um bocadinho mais racistas, talvez tivessemos conseguido mais votos."
E vai haver discussão e luta na sede do partido quando essa frase for proferida. Não vai ser proferida DESSA forma tão directa, mas essa ideia vai "circular no ar". Uns estão contra, outros estarão a favor, mas essa discussão vai haver e são as leis do mercado que assim o ditam. Na Alemanha teve-se essa discussão e nas últimas eleições foi tudo basicamente "anti-imigração". Porquê? Por questões de "moralidade"? Não. Porque o mercado dita o produto. Lei da oferta e da procura. Os partidos adaptam-se ao mercado e o mercado está focado na "anti-imigração". É o produto que vende. E uma empresa para sobreviver tem que ter lucro (votos), senão desaparece.
E tudo é um mercado, até este próprio texto. Se os meus textos forem ignorados, então terei "menos vontade" de escrever textos e existirão menos textos, mas se a malta comentar e discutir e partilhar, então eu tenho "mais vontade" de escrever mais textos. Eu próprio sou afectado por esta "lei do mercado", porque são leis universais como a lei da gravidade, o teorema de pitágoras ou a lei dos senos e co-senos. Não escapamos a isso concordemos ou não concordemos com a lei da gravidade.
Diferenças entre Alemanha e Portugal - Neutralidade política na função pública. (18.01.2025)
História de hoje: Recebi uma carta do meu chefe: O estado alemão, visto trabalhar para uma escola pública. A carta dizia, resumidamente:
"Como sabem, daqui a 6 semanas há eleições na Alemanha, logo, até à data das eleições, nada de andar aí com bitaites políticos porque senão são despedidos. Bico calado e façam o vosso trabalho. Bom dia e passem bem."
Claro que a carta não vinha redigida com esse tom, tomei umas liberdades artísticas na redação, mas o conteúdo foi essencialmente esse. Os funcionários públicos na Alemanha têm, por LEI, de ser politicamente NEUTROS durante período de eleições. Isto garante o "funcionamento saudável da democracia e a ordem nas instituições públicas."
Epah... Muito diferente do meio onde cresci, pensei eu... Nada habituado a isto. Por isso, caros amigos e amigas, nada de me perguntarem opiniões sobre política alemã nas próximas 6 semanas, tá bem?
Que acham desta regra? Faz sentido? São contra? São a favor? São neutrais? Digam de vossa justiça. Eu prometo responder de forma politicamente neutra.
O que significam as palavras "TRABALHO" e "LAZER". Serão antónimos? Ou, na verdade, sinónimos? (23.12.2024)
Reflexão sobre a época natalícia e o trabalho/lazer associado.
Oh, o Natal, que lindo. As férias, tudo pronto para descansar, recuperar energias... ou: Ir às compras, preparar prendas, mandar convites de Natal, organizar encontros e planear jantares da empresa. Enfim, um monte de trabalho para quem tanto quer relaxar.
Como é costume, as crianças então têm a sua "audição de Natal" ou então, tocam informalmente para a avó, primo, tia ou sobrinha afastada em 3o grau. Um momento "bonito" para a famíla. Momento bonito que, infelizmente, dá "trabalho" preparar. A criança lá tem que estudar o instrumento umas horas extras para não se enganar nas notas. Os pais lá têm que rever a receita da mousse da chocolate para que não seja tão seja tão desemchabida como da última vez e o bacalhau convém colocar um dia extra de molho que da última vez estava um bocado salgado.
Ou seja, queremos relaxar e descontrair, então criamos responsabilidades, tarefas e stress para realizarmos e criarmos um "momento bonito".
Na verdade, criar "momentos bonitos" parece uma actividade nada relaxante vista desta forma. Para se criar algo, seja um bom bacalhau ou um bom jingle bells, trabalho e tempo são necessários. No entanto, a nossa sociedade vive num paradoxo meio estranho que:
"Trabalho" = "mau"
"Lazer" = "bom"
E certas actividades são então categorizadas de "trabalho", essas actividades serão as más, e as outras são categorizadas de "lazer", essas actividades serão as boas. E assim tecemos julgamentos e formamos a nossa forma de pensar sobre o mundo.
Mas para termos os bons momentos natalícios, alguém teve o "TRABALHO" de embrulhar os presentes, alguém teve o "TRABALHO" de decorar a árvore e alguém teve o "TRABALHO" de estudar a fundo o tempero do bacalhau com natas. Houve uma certa dose de "trabalho" envolvido na criação do dito "lazer".
Logo, quando alguém diz que "descansar é bom" e "trabalhar é mau", na verdade, enquanto "descansam", estão a fazer "OUTRO tipo de trabalho". Na verdade, não há descanso, há apenas diferentes tipos de trabalho. Porque para um jardineiro, a actividade "regar as plantas é "trabalho" (=mau), mas para um reformado, regar as plantas é lazer (=bom). Logo, a actividade "regar as plantas" pode ser lazer ou trabalho dependendo da pessoa.
Normalmente, tudo está associado ao dinheiro, infelizmente. Se alguém me pagar para regar plantas, isso é trabalho, e deixa-me cansado, tira-me energia. Mas se ninguém me pagar para regar plantas, então aí já é lazer e essa actividade já serve para eu "recuperar energias".
Portanto, desejo a todos "bons trabalhos" (ou "bom descanso", depende da vossa interpretação, lá está) na preparação da vossa quadra natalícia. Feliz Natal. hohoho.
Desenhar claves de sol. (20.12.2024)
Há uns dias atrás surgiu una situação tão fofa e tragicómica com uma aluna de 5 anos que eu fiquei bem sem reação.
Na aula estamos todos a aprender a desenhar a CLAVE DE SOL. Esse bicho meio complexo que aparece no início de cada partitura.
Os alunos pegam no lápis, papel e mãos à obra!
Uma menina começa a chorar na sala de aula.
Qual o problema?
"O meu colega do lado faz a clave de sol muito melhor do que eu. As minhas são feias e as dele são bonitas. Porque é que ele desenha melhor que eu?"
Fico sem reação.
"Porque é que o colega do lado é melhor que eu? Porque é que eu não sou tão bom como X, Y ou Z se eu ando aqui a esforçar-me tanto como ele?"
A verdade é que não tenho resposta. Não há resposta. Mas sim, às vezes esforçamo-nos, trabalhamos, como a minha aluna, e o resultado, enfim, não é grande coisa. E o nosso vizinho, talvez sem grande esforço, até faz melhor...
Não tenho conclusão para esta história, escrevam vocês nos comentários a conclusão disto.
Nos últimos tempos tenho andado a ler muito sobre promulgação de leis, constituições e protocolos estatais. Como podem imaginar, tópicos nada chatos e super simples de explicar. (05.12.2024)
Mas porquê dedicar-me a tais tópicos?
Para a semana vou fazer o teste para obter cidadania alemã e lá aparecem perguntas chatas sobre leis e, claro, muitas perguntas sobre o Hitler e a 2ª Guerra mundial.
Fiquei a pensar muito sobre ditaduras.
Sabiam que todos os ditadores antes de fazerem as suas atrocidades e andarem a matar e prender opositores políticos precisam de fazer uma coisa muito importante: MUDAR A CONSTITUIÇÃO. Sem isso, nenhum plano maquiavélico funciona.
Na minha mente inocente, eu pensava que o ditador chegava lá e dizia: "Bora prender esta malta da oposição e proibir partidos políticos." E pronto, prendiam-se os gajos da oposição e proibiam-se os partidos políticos. E lá se seguiam as ordens do ditador. Mas a questão é: Quem segue as ordens do ditador? De onde vem esse poder? A espécie humana é curiosa: O guarda-costas do presidente é maior, é mais forte, mas o presidente franzino e baixinho, muitas vezes, mais idoso, é quem detém o poder. Porque é que o guarda-costas não dá um murro nas trombas do presidente e se torna ele o presidente se são os fortes são quem governam? Darwin não explicou isto muito bem na sua teoria da evolução...
Regressemos à Alemanha:
Quando Hitler toma o poder, ele chega à conclusão que existe um parlamento e leis que têm que ser seguidas, assim como um presidente (Paul von Hindenburg) que não o vai deixar agora fazer falcatruas para cima e para baixo. Por isso, há que fazer algumas mudanças. Deixo aqui os passos, Salazar fez exactamente o mesmo, com umas pequenas variações na receita.
Como criar uma ditadura (guia para totós):
- Primeiro precisamos de uma dose de elevada criminalidade e desordem. Se a criminalidade for baixa, tenta-se criar artificialmente crime e disputas entre a população. (Hitler organizava revoltas e manifestações por todo o país)
- De seguida exclamar: "Há muita criminalidade... Se eu tivesse mais poder, o nosso país seria mais seguro... votem em mim para tornar o nosso país mais seguro!"
Depois disto as pessoas votam e uma percentagem de facto vota no ditador com consciência de querer um ditador porque "precisamos de um país mais seguro". Segurança é, para certa parte da população, mais importante que liberdade. Logo, se "segurança" é um valor muito importante, as liberdades individuais podem ficar para segundo plano. E a democracia, lá está, serve para que essas pessoas exerçam o seu direito de votar nessa preferência em vez de outra. Porque a democracia é um exercício de preferências.
- O nosso ditador recebeu os votos. Mas a história não acaba aqui. Tendo sido votado como presidente ou primeiro ministro, o que seja, as leis que protegem os cidadãos e a liberdade de expressão continuam a existir. Nesse momento, o ditador diz: "Não consigo governar porque estas leis são limitadoras. Proponho umas quantas alterações na lei." No caso do Hitler, em 1933 enquanto chancelor (=1º ministro) ele faz um conjunto de leis que lhe garante poderes extrajudiciais (relembro que antes dessa lei ser passada, ele NÃO tinha poder absoluto). Ele convence o presidente Paul von Hindenburg a assinar essas mesmas leis para "estabelecer a segurança do país". Quando Hindenburg morre, um ano depois, Hitler novamente muda a constituição e combina os cargos de "Chancelor"+"Presidente". Simplesmente adiciona uma linha de texto que permite à mesma pessoa ter esses dois cargos. Tendo os dois cargos, Hitler acaba, efectivamente, por deter o poder absoluto a partir de 1934.
Salazar faz exactamente o mesmo, exactamente no mesmo ano como Hitler, em 1933, Salazar faz uma nova constituição e é fundado o "Estado Novo". Antes disso o Salazar era "apenas" um normal ministro como tantos outros. No caso do Salazar, em vez de "criminalidade", basta substituir com "fraca economia". A receita é a mesma, mesma base, só que no caso da Salazar é: "Se me derem poderes absolutos, a economia vai melhorar."
- Ou seja, a Constituição é SEMPRE o que é seguido. O ditador precisa sempre de ter a Constituição do lado dele, senão não consegue agir. A população faz o que a Constituição diz. Seja essa Constituição moral, imoral, lógica, ilógica, benevolente ou tirânica.
Nós todos, acho que acreditamos ser pessoas "morais". Vamos todos "tentar fazer o bem". "Vamos todos dar as mãos e abraçar-nos". Mas na verdade, o que a história nos diz é: Nós fazemos o que a Constituição nos diz para fazer o que nos permite fazer. E nós obedecemos. E obedecemos muito bem, senão a nossa sociedade não funcionaria. O que a população considera como certo ou errado vai então mudando à medida que as leis mudam.
Vamos a uns exemplos de como a nossa "moralidade colectiva" vai mudando na passagem do tempo, da mesma forma que o meu computador de vez em quando instala uma nova actualização (quer eu queira ou não...)
A Constituição alemã em 1933 classificava os homossexuais como inimigos do estado. Cá vai a lei:
"§ 175 - Ato homossexual entre homens -
Quem, de modo imoral, praticar atos de natureza sexual com uma pessoa do mesmo sexo será punido com prisão ou pena de trabalhos forçados, podendo a pena ser aumentada em caso de reincidência."
Interessante o facto da lei ser só especificamente contra homens e não contra mulheres. Ou seja, é uma lei discriminatória, mas até a discriminar esta lei discrimina as mulheres... (!) Mas pronto, curiosidade histórica à parte, desde 2017, o casamento entre pessoas do mesmo sexo já é legal na Alemanha. A versão anterior dizia: "O casamento é para a vida.", e a nova versão diz:
"O casamento é celebrado entre duas pessoas de sexo diferente ou do mesmo sexo para o resto da vida.
E voilá, com meia dúzia de palavras alteradas num pedaço de papel, o ilegal passou a legal, o imoral a moral. E vice-versa.
O que se torna mais fascinante é quando países alteram as leis em períodos diferentes, havendo certos "desecontros" legais e morais entre países. Tendo viajado e contactado com pessoas de vários países, o tema da "moralidade" é um dos temas mais fascinantes. Todos achamos que "certo país" acaba por ser mais ou menos moral do que outro, dependendo das suas regras e leis.
Tomamos o exemplo da eutanásia: De momento, em Portugal, apenas para doenças terminais e para adultos. Na Holanda, a eutanásia é legal para adultos e para crianças de 12 a 17 anos, com consentimento dos pais.
Para os Holandeses, Portugal é um país imoral por obrigar uma criança a sofrer, para Portugal a Holanda é um país imoral por permitir um menor fazer essa decisão.
Mas antes acharem os holandeses uns monstros imorais que matam crianças aos pacotes, entre 2012 e 2020, apenas 6 casos foram registados de menores que de facto submeteram-se ao processo, por isso, são casos EXTREMAMENTE raros. Mas a lei está feita e está lá e está em vigor e é seguida.
Facto interessante: Na Suíça, a eutanásia é apenas para adultos como em Portugal, mas a pessoa não precisa de sofrer de uma doença. Pode ser eutanasiada sem estar doente. O que faz a Suíça ser o destino nº1 para as pessoas que querem morrer.
Comentem com as leis mais interessantes que conhecem! Beijinhos e abraços.
Notas "originais" vs notas "não-originais" - A nossa obcessão com o "natural" e o "original". (05.11.2024)
Existe um movimento cultural que está a dominar a nossa sociedade e que, pensava eu, NADA tinha a ver com música, mas afinal tem.
Hoje em dia tudo tem que ser original, natural, biológico. Que tem isso a ver com música? Achava eu que nada, mas aparentemente muito.
Vou tentar explicar isto de uma forma que até não-músicos possam entender.
Exemplo concreto:
Qualquer um de nós usa o "Hino à Alegria" do Beethoven como peça de estudo, seja violino, guitarra, piano ou trompete, uma peça universal. Normalmente toca-se sempre um pequeno excerto da peça (o início). Tocamos na aula e depois o aluno (adulto) diz:
"Tudo bem, soa bonito, mas isto não são as notas originais."
Respondo: "Pois, sim, isto é um excerto da 9a sinfonia de Beethoven e as notas originais são para uma orquestra de 80 elementos... e nenhum deles toca guitarra."
"Pois, mas quando eu comparo com a gravação, as notas que estamos a tocar não soam bem igual... tento tocar com a gravação e simplesmente não soa bem."
Aí entendo a raíz do problema, já não estamos a falar da instrumentação, mas sim do "tom" (tonalidade). Bom, a explicação é que normalmente o tema está transposto para "Dó Maior" (=FÁCIL - para os não músicos) em vez do original "Ré Maior (=DIFÍCIL - para os não músicos). Pronto, explico isto, toco as duas versões e lá vem a famosa frase:
"Temos que tocar como no original! Porque é que o autor deste livro está a mudar as notas do Beethoven? O original é melhor."
Lá está, o Beethoven com a etiqueta "bio" e o Beethoven sem a etiqueta "bio". O que me espanta é que até na música pop alguns alunos têm uma certa "obcessão" com a tonalidade original. E eu tento explicar: "Na música pop a tonalidade (tom) de uma canção não é algo "original" ou "não-original". Depende de cada cantor, é adaptada sempre à situação."
Às vezes os livros para iniciantes adulteram notas da melodia ou há certos ornamentos que não são escritos (para que a escrita e a aprendizagem seja fácil). Para as crianças isto é fantástico mas para alguns adultos ficam um pouco perplexos que as "notas possam ser mudadas". O original simplesmente é, por vezes, demasiado difícil.
Portanto, digo: "Olha, tocar esta peça como na partitura original é muito difícil. Não vai resultar." E 99% das vezes os alunos ignoram o meu conselho e querem tocar peças difíceis, então a indústria dos livros de educação musical respondeu com "arranjos simples" de músicas complexas. O que faz todo o sentido. Mas não me peçam pelo "original", porque o "chocolate original sem processos químicos" é uma planta amarga! E hoje em dia queremos "chocolate original e doce", o que cria um paradoxo na nossa sociedade difícil de se resolver. Queremos que o chocolate seja doce... mas sem processos químicos nem açúcar adicinado... pois...
História de hoje: (09.10.2024)
A turma estava um pouco agitada e sem grande vontade de aprender. Não estavam muito cooperativos.
Digo: "Então? O que se passa? Ficamos aqui o resto do tempo sem aprender nada de novo?"
A turma: "SIM! BORA FICAR SEM FAZER NADA!"
Eu: "Ok, mas assim se não aprendemos coisas, não nos tornamos mais inteligentes."
A turma fica meio intrigada, meio calada. E aí faço a seguinte (provocativa) pergunta:
"Vamos lá! Braços no ar! QUEM É QUE AQUI QUER SER BURRO?"
O caos instala-se! Todos se soltam às gargalhadas.
Uma menina: "Eu não quero ser burra!"
Um outro: "Eu já sou inteligente."
E um outro: "Eu não me importo de ser burro."
E eu começo a rir com as reações e volto a insistir: "Bom, vocês lá sabem, mas eu não quero ser burro... Eu prefiro estudar e aprender coisas. Mas se vocês quiserem ficar o resto do tempo sem aprender nada... Pronto, é lá com vocês...
"Os bons, os maus e os génios - Quem são eles e como os identificar?" (26.09.2024)
Todos gostamos de histórias que no final tenham uma certa "moral". Conta-se a históriazinha e no final queremos a "papinha feita". Esta pessoa agiu bem, a outra agiu mal. Uma é boa e a outra será a má. Vou contar uma história que serve como exemplo deste fenómeno:
História número 1:
A autora JK Rowling ao apresentar o seu livro "Harry Potter e a Pedra Filosofal" a várias editoras, foi rejeitada 12 vezes.
12 editores, sem se conhecerem, especialistas em literatura, leram o livro "Harry Potter" e acharam: "Isto não é suficientemente bom para se publicar."
Mas, graças à perseverança de JK Rowling, a 13ª editora lá aceitou publicar o livro... e o resto é história, como dizem.
Os malévolos editores que não "apoiaram" a JK Rowling. Terríveis, incompetentes, maléficos mesmo. Como poderam não editar um dos maiores sucessos de sempre? Não é "ÓBVIO" que se tratava de um sucesso instantâneo? Felizmente, a JK Rowling, determinada e trabalhadora, superou contra as dificuldades que a sociedade lhe enfrentou e atingiu o sucesso. Lá está a nossa historiazinha com a moralidade associada no fim para irmos todos contentes e sorridentes para casa. Justiça foi servida! Hip hip, hurrah!
Agora pensemos um bocadinho, analisemos em profundidade, se me permitem:
Imaginemos agora vocês terem o rótulo de: "O editor que rejeitou editar a JK Rowling." A quantidade de MILHÕES DE EUROS que vocês perderam (!!!). 12 pessoas perderam uma oportunidade de OURO de serem milionários à custa do talento da JK Rowling. Nem sei como conseguem dormir à noite. Independentemente do gosto ou desgosto do editor pelo livro, bom, sabendo que iria vender MILHÕES E MILHÕES de cópias, qual editor não editaria o livro?
No entanto, esta história é sempre contada com uma moral associada: "A sociedade está contra ti e tu tens que lutar contra a sociedade. JK Rowling - Boa. Editores - Mauzões"
O problema é que não, a sociedade não está contra ti, os editores não estavam "contra a JK Rowling", secretamente a desejar que ela não tivesse êxito. Simplesmente foi uma má decisão editorial... que foi repetida 12 vezes. Talvez o que achamos "genial" e "bom" não será assim tão simples?
História número 2:
No dia 24 de Janeiro de 1975, Keith Jarrett sobe ao palco em Colónia e dá um concerto em condições sub-optimais: O piano não era o que tinha pedido (era um modelo inferior), ele próprio estava exausto e tinha dores nas costas. O concerto foi gravado. Depois de ouvir a gravação, o Keith Jarrett disse à editora: "Não publiquem isso. Não tem qualidade suficiente. Não estou nada contente com o resultado."
Depois de muita insistência do editor, Manfred Eicher, o Keith Jarrett lá concordou a contra-gosto que o album fosse publicado. Resultado: 4 milhões de albuns vendidos. Um dos maiores êxitos de sempre.
Neste caso, o próprio artista é que se "auto-censurou" a ele próprio e foi o editor que o salvou. Já não podemos aplicar a lógica do "bom" e do "mau" como na história anterior. Qual a moralidade agora desta segunda história?
Existem as "fantasias morais" que as pessoas inventam e depois existe a "realidade". Distinguir as duas é muitas difícil porque os factos históricos são sempre "acompanhados" de uma certa perspectiva. Existe a REALIDADE e depois a interpretação subjectiva da realidade.
O que é a REALIDADE então?
A realidade é que até para "especialistas", determinar o que "tem qualidade" do que "não tem qualidade" é uma tarefa praticamente impossível. O "genial" não é óbvio, nem nunca foi óbvio. Se algo "é bom e teve sucesso" as pessoas assumem que foi quase como que uma conclusão lógica, determinista, quase como que "tinha que acontecer". "Ele canta tão bem! De certeza que vai ter sucesso!" Infelizmente, não é assim. Podes cantar super bem e ter zero sucesso. Lamento ser o portador das más notícias.
Imaginemos uma realidade alternativa que a JK Rowling depois de ter sido rejeitada 12 vezes, teria dito a si mesma: "Tentei. Escrevi o meu livro e fui rejeitada 12 vezes. Pronto, está provado, não tenho talento para isto. Não tenho talento para escrever livros."
Isso poderia muito bem ter acontecido num universo alternativo (para os crentes em universos paralelos e coisas do género). O facto de ter tentado 13 vezes em vez de 12 mudou COMPLETAMENTE a realidade, de "escritora fracassada" a "escritora de bestsellers".
Quantas pessoas conhecemos que tentaram algo 10 vezes, foram rejeitadas e desistiram? Será que não "têm talento"? Ou serão mais um caso de JK Rowling, onde 10 tentativas não chegam? Será que se tentarmos 257 vezes, com 257 editoras atingiremos então o sucesso? Qual o número de vezes que temos que tentar para atingir o sucesso?
Ficam as perguntas retóricas. Abraços e beijinhos.
Para evitar mais assuntos controversos nas minhas crónicas, este post vai ser sobre... POLÍTICA. (21.09.2024)
Um tema NADA controverso, certo?
Ontem estava a ver um vídeo sobre o parlamento europeu e os blocos parlamentários e lá estava um gráfico FANTÁSTICO a resumir a posição de cada bloco sobre assuntos importantes e TÊM que ler sobre isto porque este gráfico tem conclusões surpreendentes e SUPER INTERESSANTES.
Ok, vamos por pontos:
1) O QUE SÃO BLOCOS PARLAMENTÁRIOS?
Os partidos europeus semelhantes juntam-se em "blocos". Ou seja, os ecologistas portugueses, alemães , holandeses, etc... juntam-se os seus partidos e fazem o bloco dos VERDES. (como exemplo). Esses blocos são ideologocamente semelhantes e votam mais ou menos parecido nas mesmas coisas. Até aqui tudo bem.
2) QUANTOS BLOCOS HÁ E QUE BLOCOS SÃO?
Há 8 blocos mais um conjunto dos partidos que não têm bloco. Ou seja 8 + "o resto".
Muito resumido, da esquerda para a direita.
"A esquerda" - A extrema esquerda (ou simplesmente esquerda, como quiserem)
"Verdes" - o nome diz tudo
"Socialistas" - centro-esquerda
"Renovar europa" - centro, neutral
"PPP - sociais democratas" - centro-direita
"Europa para conservadores e reformistas" - Direita conservadora
"Patriotas para europa" - extrema direita
"Europa dos soberanos" - também extrema direita
3) PORQUE É QUE HÁ TANTO PARTIDO DE DIREITA E DOIS DE EXTREMA DIREITA? NÃO PODIAM TER FEITO UM BLOCO MAIOR?
Pois, sim. Bom, há muita partido de direita porque as pessoas assim votaram, isso é a primeira parte. Agora, para distinguir os "Patriotas para europa" da "Europa dos soberanos" vou contar uma pequena história.
Era uma vez um amigo que fazia de vez em quando comentários inapropriados, muitas vezes de carácter racista e xenófobo. No entanto, se esse amigo estiver num café e o empregado/a for uma pessoa de cor e se aproxima, esse amigo cala-se, fica ligeiramente incomodado e termina a conversa ou fala baixinho. Esse amigo é o partido "PATRIOTAS PARA EUROPA". Ou seja, é um racista que tem consciência que o que diz é errado, então cala-se no momento certo.
Mas às vezes temos um outro amigo que faz na prática os mesmos comentários, mas quando o empregado se aproxima, CONTINUA A FALAR. Esse amigo nem sequer se apercebe que o que está a dizer é errado. É aquele amigo que nós temos até vergonha de estar ao pé dele porque ele simplesmente não consegue ter noção do que diz. Esse é o grupo "Europa dos Soberanos". Ambos os blocos com as mesmas ideias, mas os "Patriotas" não querem ter nada a ver com a "extrema-direita" soberana. Complicado... Mas pronto, é assim a vida.
Conclusão: há gradações na extrema-direita. Embora em Portugal apenas haja um partido de extrema direita em vez de dois. (Assim como na Alemanha e muitos outros, esta distinção é muito ténue e às vezes é difícil estar a formar um partido só para ter esta distinção).
Para os curiosos entre vocês, o CHEGA faz parte dos PATRIOTAS, a extrema-direita que se cala quando o empregado se aproxima.
Enfim, eles vão acabar por votar igual nas mesmas coisas, logo na prática, contam como um bloco e constituem 15% do parlamento combinados.
MAS NÃO É TUDO!!! HÁ MAIS!!!
Um facto muito interessante é o tema "armamento" e "Ucrânia". Teoricamente extrema esquerda e extrema direita estariam nos ANTÍPODAS politicamente. Nunca se aliaram numa votação. Excepto no que toca ao tema "Ucrânia" e "armamento". Ambos a andarem em direções diferentes mas ambos chegam à mesma conclusão. Eu chamo-lhes:
"O Hindu vegetariano e o Ateu vegetariano".
O Hindu leu os livros sagrados e chegou ao vegetarianismo. O ateu leu estudos científicos e também chegou ao vegetarianismo.
A extrema direita diz: "Nada de armas para a Ucrânia porque o Putin até é um gajo porreiro e diz cenas fixes."
A extrema esquerda diz: "Nada de armas para a Ucrânia porque armas e guerra não é fixe."
Lá está, o vegetariano Hindu e o vegetariano Ateu. Ambos unidos no vegetarianismo apesar das suas diferenças ideológicas.
Vejam o gráfico abaixo que está fantástico. Espero que tenham gostado do post de hoje. Bom fim de semana
Pensamento do dia: A inutilidade do professor e da escola. (06.09.2024)
Algo para reflectirem durante o fim de semana.
Era uma vez um famoso cientista chamado "Zé Manel". O Zé Manel era muito inteligente e ganhou o prémio Nobel, com as suas invenções e descobertas fantásticas. Numa entrevista, o Zé Manel diz:
"Todo o meu sucesso deve-se ao professor António das Couves, que me inspirou a ser cientista. As suas aulas eram fantásticas. Além disso, a nossa escola era fantástica e tinha todas as instalações necessárias para eu realizar as minhas experiências científicas."
Os leitores tiram então a conclusão: "O professor António das Couves devia ser mesmo bom! Que pena eu não ter tido o professor António das Couves! Que pena não ter tido a escola que o Zé Manel teve. Também eu teria sido um cientista brilhante! O Zé Manel teve muita sorte! É um privilegiado! Ele próprio o disse!"
E, no entanto, o professor António das Couves teve centenas de alunos durante a sua carreira e a escola outros milhentos que compartilharam o mesmo espaço durante anos a fio. Centenas de alunos tiveram o mesmo privilégio, as mesmas condições, o mesmo laboratório. No entanto, apenas um fez uso dele e tornou-se cientista.
A escola e o professor criam as condições e as oportunidades, mas lá por alguém "ter" oportunidades, não quer dizer que as "agarre" ou que as "realize".
Por isso, alguém "ter sorte" ou "ter oportunidades" é só o primeiro micro-passo de uma grande, enorme, gigante escadaria que temos que subir.
Eu posso ter o privilégio de ser rico e ter 500 livros em casa para meu deleite pessoal, mas o livro não se abre e não se lê sozinho. Tanto o pobre como o rico têm que abrir o livro e lê-lo se quiserem aprender. Aí, tanto o pobre como o rico estão em pé de igualdade. As páginas não se lêm sozinhas.
As crianças de hoje terem "mais oportunidades do que os adultos" com acesso a internet e informação infinita, com tutoriais de tudo (literalmente de tudo!) e mais alguma coisa no youtube só serve de algo se, efectivamente, tomarem ação nesse sentido.
Podemos ser priviligiados, ter acesso a coisas e no entanto, não fazer nada.
Logo, a sociedade junta-se e constrói a escola, o professor cria as condições. O dinheiro foi investido e o trabalho realizado, a partir daí, só o poder do indivíduo conta. E temos que dar mérito ao indivíduo, logo quando algum ex-aluno me aborda e diz aprendeu "graças a mim". Eu digo:
"Não. Tu aprendeste graças a ti."
Um pequeno post sobre o preço de uma garrafa de água. (02.09.2026)
Em países com uma economia "menos desenvolvida", a bebida mais barata será sempre: A garrafa de água. Mas isso tem tendência a desaparecer.
Hoje em dia, na Alemanha, pedir uma água num restaurante ou num bar custa o mesmo que pedir uma coca cola. Em muitos bares até a cerveja é mais barata. Aqui na Alemanha até muitas vezes a cerveja é 2,50€ mas pedir uma garrafa de água é 3€. Mas porquê?
Fazer a receita: "Água + coisas" não seria MAIS CARO , mais custos de produção do que ter APENAS água? Até nas máquinas de venda automática que se encontram nas estações de comboios vejo esse fenómeno, mas noto que isto é uma coisa "Centro-europeia" porque vejo que em Portugal ainda não chegou esse fenómeno, mas a pouco e pouco vai chegando e parece-me não fazer sentido.
O caso mais escandaloso na Alemanha é pedir uma água de 1L num restaurante, vem sempre numa garrafa de vidro (para justificar o preço) e custa à vontade uns 6€. Agora tem estado calor, verão, bebo o litro de água num quarto de hora e penso: "Fogo, bebi 6€ em água assim num abrir e piscar de olhos..."
Não dá para fazer aí um baixo-assinado para podermos manter o preço dos refrigerantes e de cerveja à vontade mas baixar um bocadinho o preço da água? Era fixe. Obrigado.